Até quando será nossa espera? A Carta dos Xukuru-Kariri ao presidente da República

Comunidade indígena aguarda finalização da demarcação, enquanto enfrenta crescente campanha de desinformação e difamação por políticos na região, que ainda tentam impedir processo.
Povo Xukuru-Kariri participa de visita de Lula a Maceió e cobra homologação da demarcação. Foto: cortesia

Quando o presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, pisou em terras alagoanas na última sexta-feira, 23 de janeiro, o povo Xukuru-Kariri, de Palmeira dos Índios, viajou até Maceió para recebê-lo. A comitiva chegou com cartazes, cantos e uma Carta, publicada também à sociedade alagoana, em que cobram a homologação do Território Tradicional Xukuru-Kariri, etapa final do processo de demarcação prometida por Lula ainda durante seu governo de transição.

Há uma série de razões para a manifestação da comunidade indígena. Ainda durante o período de transição, Lula anunciou a meta de demarcação de 14 terras indígenas, entre elas, a dos Xukuru-Kariri. Em Palmeira dos Índios, a expectativa do povo Xukuru-Kariri crescia conforme as etapas avançavam. Entretanto, políticos locais capitanearam uma campanha difamatória anti-demarcação, arregimentando inclusive agricultores familiares que ocupavam aquelas terras, com a divulgação de que seriam expulsos de suas casas sem qualquer tipo de solução. As tensões ficaram ainda mais acentuadas quando técnicos da FUNAI foram até as áreas ocupadas para  realizar o levantamento das benfeitorias realizadas por não -indígenas, etapa que integra o processo de demarcação e garante aos não-indígenas a indenização sobre seu material e produção.

A ausência de orientações por parte de órgãos públicos em relação às políticas de reassentamento, acentuaram o temor de camponeses que ocupam as terras indígenas, o que os colocaram em situação de ainda maior assimilação ainda aos discursos anti-demarcação. A Mídia Caeté escreveu reportagem sobre o assunto. Clique aqui para ler na íntegra. 

Governador Paulo Dantas faz pose em foto em Caminhada anti-demarcação em Palmeira dos Índios. Mobilização é arregimentada por políticos e empresários locais. Foto: redes sociais.

Com o processo atravessado e tomado por desinformação, a hostilização contra a comunidade indígena vem crescendo e o impasse só aumenta enquanto o processo não finaliza. Na Carta escrita ao presidente, a comunidade expressou essa experiência.

“Defendemos que a eventual retirada das famílias não indígenas que ocupam nosso território seja conduzida pelo Estado com responsabilidade, diálogo e respeito à dignidade humana, conforme os princípios da justiça social. A dor não pode ser multiplicada, nem o sofrimento de uns utilizado para aprofundar injustiças contra outros. O direito sagrado à vida deve orientar todas as ações. Clamamos para que o espírito do diálogo, da tolerância e da escuta verdadeira prevaleça. Temos assistido, em nosso município, a situações que geram preocupação e que, se não forem conduzidas com responsabilidade institucional, podem estimular conflitos e enfraquecer a paz social. Confiamos que a homologação de nosso território contribuirá para encerrar tensões e abrir caminhos duradouros de justiça e de paz, pois sem justiça não há paz verdadeira”.

 

Leia a Carta na Íntegra:

 

CARTA DO POVO XUKURU-KARIRI AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA
E À SOCIEDADE ALAGOANA

Nós, povo Xukuru-Kariri, filhos e filhas desta Terra ancestral, originários do território
tradicional localizado no município de Palmeira dos Índios, no Estado de Alagoas, saudamos
com respeito e espírito de acolhida a presença do Senhor Presidente da República, Luís Inácio
Lula da Silva, em nossas terras. Terra viva, marcada pela memória dos nossos antepassados,
pelas culturas que resistem e pelo cuidado de povos que caminham sustentados pela esperança,
pela confiança e pela fé.

Falamos a partir do chão que pisamos, da memória viva dos que vieram antes de nós e do sopro
espiritual que nos sustenta como povo. Nossa existência está enraizada na vida comunitária, no
cuidado com a natureza e no reconhecimento de que tudo o que vive está profundamente
interligado. Para nós, a Terra não é mercadoria: é mãe, é altar, é morada sagrada onde a vida se
renova e se protege.

Vivemos tempos de grande sofrimento humano, marcados por divisões, violências, destruição
da natureza e endurecimento dos corações. Nossa sabedoria ancestral nos ensina que ninguém
nasce para promover a dor, a mentira, a guerra ou a opressão. Acreditamos que todo ser humano
é chamado a trilhar o caminho do bem viver, da escuta atenta, do diálogo sincero e da construção
da paz.

Como povo originário, carregamos a dor de sucessivas injustiças. Por gerações, tivemos negado
o direito às nossas terras tradicionais, ainda que elas sejam fundamentais para nossa
sobrevivência física, cultural e espiritual. Mesmo diante dessa história de negação, não
desistimos de esperar: esperamos por justiça, esperamos por paz e esperamos por um tempo em
que o direito caminhe junto com a dignidade, permitindo que a vida floresça sem medo. Nosso
desejo é simples e profundo: viver em paz, cuidar de nossas famílias, preservar nossos rituais,
nossa fé e nossa forma própria de estar no mundo.

Neste momento em que o processo de demarcação de nosso território tradicional avança,
dirigimo-nos a Vossa Excelência para reafirmar nossa esperança e nosso pedido pela
homologação definitiva de nossas terras, como ato de justiça histórica, de fiel cumprimento da
Constituição Federal de 1988 e de promoção da paz social. Para nós, a homologação é um
passo sagrado e necessário, capaz de restaurar caminhos, curar feridas e assegurar que a vida
siga seu curso com dignidade.

Ajudamos a te eleger porque acreditamos no compromisso de Vossa Excelência com a nossa
justa causa por território. Desde o governo de transição, foi formado o compromisso de
homologação do território Xukuru-Karirri, demarcado em durante o vosso segundo
governo. Até quando será nossa espera?

Defendemos que a eventual retirada das famílias não indígenas que ocupam nosso território
seja conduzida pelo Estado com responsabilidade, diálogo e respeito à dignidade humana,
conforme os princípios da justiça social. A dor não pode ser multiplicada, nem o sofrimento de
uns utilizado para aprofundar injustiças contra outros. O direito sagrado à vida deve orientar
todas as ações.

Clamamos para que o espírito do diálogo, da tolerância e da escuta verdadeira prevaleça. Temos
assistido, em nosso município, a situações que geram preocupação e que, se não forem
conduzidas com responsabilidade institucional, podem estimular conflitos e enfraquecer a paz
social. Confiamos que a homologação de nosso território contribuirá para encerrar tensões e
abrir caminhos duradouros de justiça e de paz, pois sem justiça não há paz verdadeira.

Nós, Xukuru-Kariri, acreditamos que todos fazemos parte de uma mesma família humana,
ligados uns aos outros e à própria natureza. Somos Terra, e a Terra vive em nós. Defender nosso
território é defender a vida, o alimento, a dignidade de nossas crianças e a continuidade de nossa
história.

Queremos nossas terras para semear, colher, partilhar e rezar. Não para a especulação, mas para
a vida que brota, resiste e permanece.

Nossa Terra é nosso Altar, onde quer que ela esteja.

Que esta carta seja acolhida com os ouvidos do coração. Que a justiça esperada se transforme
em realidade e que a paz, tão desejada, encontre morada em nossas terras e em nossas relações.

Que as aspirações do povo Xukuru-Kariri encontrem eco nas ações do Estado brasileiro.

Município de Palmeira dos Índios/AL, 23 de janeiro de 2026.

Com respeito, esperança e fé,
Povo Xukuru-Kariri

Apoie a Mídia Caeté: Você pode participar no crescimento do jornalismo independente. Seja um apoiador clicando aqui.

Recentes