Por Alexandre Fleming*

Historicamente, Alagoas figura entre os estados mais violentos do Brasil. Na última década, a sucessão de governos do MDB, primeiro com Renan Filho (2015 a 2022) e, desde então, com Paulo Dantas, insiste em anunciar investimentos robustos em segurança pública. No entanto, os dados seguem desmentindo o discurso oficial. O que se mantém é um modelo centrado quase exclusivamente na repressão, desarticulado de qualquer política social consistente e incapaz de enfrentar as causas estruturais da violência.
O governo Renan Filho intensificou a militarização das ruas com a ampliação do efetivo policial, aquisição de armamentos pesados e instalação de sistemas de videomonitoramento. Essa lógica foi mantida pelo atual governador Paulo Dantas, que segue apostando na mesma cartilha: helicópteros de última geração, novas armas, viaturas em série e operações com forte apelo midiático. O Estado se apresenta como uma máquina de repressão eficiente, mas ignora a base real do problema.
Em 2023, Alagoas registrou 35,3 mortes por 100 mil habitantes, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Trata-se de uma das taxas mais altas do Nordeste e quase o dobro da média nacional, de 18,7 por 100 mil. O que os números revelam é que o modelo vigente pode até produzir recuos pontuais, mas falha sistematicamente em reduzir de forma sustentável os índices de criminalidade. Os alvos da violência permanecem os mesmos: jovens negros das periferias, mulheres em situação de vulnerabilidade, idosos pobres e moradores das periferias.
Essa política repressiva, além de ineficaz, se desdobra em violações sistemáticas de direitos humanos. Relatórios da Comissão de Direitos Humanos da OAB/AL revelam um cenário alarmante no sistema prisional do estado. Os presídios Baldomero Cavalcante e Cyridião Durval, por exemplo, operam com superlotação crônica, esgoto a céu aberto, ausência de assistência médica e estruturas insalubres. A população carcerária ultrapassa em mais de mil o número de vagas disponíveis. Mesmo com recursos federais disponíveis, faltam equipes básicas de saúde nas unidades prisionais, um descaso que revela o desprezo com que se trata a vida dos privados de liberdade.
Nas delegacias da Polícia Civil, a situação também é crítica. Apesar da ampla cobertura territorial, persistem denúncias graves envolvendo invasões domiciliares, agressões físicas, tortura, negligência médica, revistas vexatórias e até suspeitas de execuções. O Estado, que deveria garantir direitos, age frequentemente com truculência, desumanização e impunidade institucionalizada.
Esse quadro se agrava diante da realidade socioeconômica de Alagoas, que permanece entre as mais precárias do país. Em 2022, o estado registrou um Índice de Gini de 0,526, evidenciando uma desigualdade de renda brutal. No mesmo ano, o IDH estadual era de apenas 0,684, um dos mais baixos entre todas as unidades federativas. Organismos internacionais como ONU, Banco Mundial e OMS são unânimes em afirmar que não há redução consistente da violência sem políticas sociais robustas e redistribuição de renda. Mas em Alagoas, o investimento continua sendo em armas, não em escolas; em helicópteros, não em saneamento; em operações, não em oportunidades.
A consequência política desse modelo também precisa ser analisada. O ex-secretário de Segurança de Renan Filho, símbolo da política de repressão, foi lançado como candidato à Prefeitura de Maceió em 2020 com apoio do próprio governador e da família Calheiros. Após ser derrotado nas urnas, aderiu à extrema-direita, apoiou publicamente a reeleição de Jair Bolsonaro em 2022 e foi eleito deputado federal, o segundo mais votado do estado e o primeiro na capital. Maceió, aliás, foi a única capital do Nordeste onde Bolsonaro venceu no segundo turno. A política de segurança vigente não apenas fracassou no combate à violência, como também serviu de plataforma para a ascensão de lideranças conservadoras, autoritárias e alinhadas à criminalização dos movimentos sociais e da juventude periférica.
O fenômeno não parou por aí. Fábio Costa, o vereador mais votado de Maceió em 2020, também surfou na pauta da segurança para se eleger deputado federal. Cabo Bebeto, com forte base entre as forças policiais, ocupa vaga na Assembleia Legislativa com retórica semelhante. Em 2024, o delegado Thiago Prado foi eleito vereador com o mesmo discurso. Todos esses personagens ascenderam politicamente sobre os escombros desse modelo de segurança pública, transformando o medo em discurso, a violência em capital eleitoral e as operações policiais nas periferias em espetáculo. Prisões, invasões e sangue tornaram-se cenas exploradas com cinismo, exibidas como troféus de uma guerra que nunca alcança suas causas.
Em julho de 2025, o governo Paulo Dantas realizou o que chamou de “a maior entrega da história para a segurança pública” em Alagoas, anunciando um investimento superior a R$ 50 milhões. Foram apresentados dois helicópteros de patrulhamento, 145 viaturas, 3 mil pistolas Glock, 2.700 coletes balísticos, escudos, armas de choque, sprays de pimenta, munições de borracha e equipamentos de inteligência. Também foram entregues rádios digitais e softwares. O volume de recursos e a sofisticação dos aparatos impressionam, mas revelam a face de um modelo que insiste em reforçar a repressão como resposta única. O Estado continua priorizando armas, blindados e espetáculo enquanto negligencia as causas reais da violência: pobreza extrema, desigualdade, racismo estrutural, exclusão territorial e abandono social. A segurança pública em Alagoas virou vitrine de poder, mas segue sem projeto de justiça.
Diante de tudo isso, é preciso dizer com todas as letras: o modelo de segurança adotado em Alagoas fracassou. Ele não protege, não previne, não inclui. Ele apenas reprime. A violência não nasce da ausência de policiamento, mas da permanência da desigualdade, da exclusão e do abandono histórico dos territórios mais pobres.
Superar esse ciclo exige muito mais do que tecnologia e reforço no efetivo. Exige coragem política para enfrentar os privilégios de classe, para distribuir recursos com justiça, para garantir direitos a quem sempre foi privado deles. Sem isso, Alagoas continuará mergulhada no mesmo abismo: altos índices de violência, repressão seletiva, oligarquias recicladas no poder e nenhum projeto real de transformação.

Alexandre Fleming é professor do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), campus Maceió, onde atua há quinze anos nas áreas de História e Educação. É graduado em História e mestre em Educação pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Já foi presidente do Sintietfal e coordenador-geral do Sinasefe Nacional.





