É ano de 2026 e o jornalismo enfrenta dilemas novos, e alguns antigos com aparência de novos.
Há pouco mais de uma década, lidávamos com a exigência patronal de precisarmos ser- de repente – jornalistas da espécie “multimídia”, distribuindo conteúdos em mídias distintas, um nome bonito para maquiar a polivalência.
Para quem já chegou pelo webjornalismo, era lei publicar notícias em linhas de produção: publicando mais, chegando primeiro, focando em poupar tempo, mesmo que implicasse largar mão da profundidade porque não havia a menor condição. Alguns anos antes, EM 2009, o ministro Gilmar Mendes, tinha derrubado a exigência do nosso diploma para exercício da profissão: uma martelada sem piedade nos cursos de jornalismo, que foram se esvaindo. Sempre com o uso coringa e falacioso da suposta “liberdade de expressão” para fragilizar o dever da informação qualificada.
Em mais um salto pra um futuro sem fé e no sufoco, fomos impelidos a nos apropriar de redes virtuais, não importando qual tenha sido nossa especialização, formação, e inclusive interesse.
Vem o momento atualíssimo: as ofensivas pela desregulamentação do nosso trabalho com a tal ‘profissão multimídia’ que – por óbvio – não substitui a profissão jornalista, mas calha de ser, de um jeitinho bem cara de pau – um baita instrumento de precarização.
São golpes e mais golpes que, aliás, estão completamente inseridos dentro do contexto do mundo do trabalho e toda a sua complexificação. Há até auto-golpes quase que compulsórios, quando lembramos o tanto que oferecemos nosso conteúdo de graça para grandes plataformas (as big techs), que enriquecem com todo tipo de informação e desinformação, enquanto o jornalismo crítico- ainda mais o independente – muitas vezes vive de passar o chapéu e pedir pix .
Nós, que confrontamos a desinformação, somos sabotados por métricas, mas nos mantemos firmes por aqui porque ainda conseguimos furar algumas bolhas, aqui e ali, e encontrar interlocutores que fazem com que tudo continue fazendo sentido de algum jeito.
A gente quer defender nosso trabalho com unhas e dentes. Ao menos, alguns de nós queremos. O problema é que não sabemos como. A gente vai se jogando. Alguns nascidos e criados na escrita se metem a fazer vídeo porque “reel” alcança mais gente do que textão. Isso é feito com a consciência de que tudo issso fala muito menos sobre a defesa do trabalho de verdade, e se trata muito mais sobre a defesa de uma sobrevivência dentro desse trabalho.
Alguns de nós passam a tentar entender como funcionam algoritmos. Do mal necessário, se tornam especialistas: como patrocinar, engajar, táticas, técnicas, horários, formatos.
Para nós, isso tudo está valendo.
O que não vale é o vale-tudo. Como não valia lá atrás. Não vale sermos distraídos e dançar conforme essa dança. Se a gente não toca nessa ferida entre nós, só reproduzimos tantas outras profissões que em nome do corporativismo, numa busca desesperada por sobrevivência, e vestindo a fantasia confortável da neutralidade, nos aceitamos ser guiados por violações abomináveis e indizíveis.
É uma dança na beira do penhasco, perigosa e inconsequente, que não cai só quem dança mas leva junto toda uma sociedade conduzida por discurso de ódio, misoginia, racismo, classismo e um moralismo sexista que tem alvos de morte precisos.
Por que, numa sociedade absurdamente misógina, a gente vai divulgar a carta de um assassino de dois filhos que culpabiliza a mãe pelos crimes que ELE cometeu.
Por que relativizar um ato criminoso pela romantização de quem o causou? Por que criar notícias e mais notícias especulando se a mulher traiu ou não, como se ela é quem tivesse puxado o gatilho ou motivado o crime que ELE cometeu?
Por que usar nosso tempo remunerado ou não para ajudar a acabar não só com a vida dessa mulher, como engatilhar tantas outras que perderam seus filhos em circunstâncias semelhantes?
Por que, do alto de nossa formação, leitura de realidade e pensamento pretensamente crítico, não pensarmos – só por um minuto – o quanto reproduzimos e terminamos por provocar e aglutinar ainda mais misóginos a fazer igual?
Como mulher e mãe, por óbvio amedronta e enoja ver homens defendendo o assassino, mulheres também, mas agora quero focar mesmo na preocupação com colegas de profissão que reproduzem esse jornalismo inconsequente e caça-níquel.
Como jornalistas, a gente sabe das nossas obrigações e compromissos. Se não o fazemos e decidimos produzir qualquer coisa, não é por falta de conhecimento, nem excesso de perrengue.
É mais porque, muitas vezes, o vale-tudo já dominou. Jornalistas precisam criar filtros de bom senso e fazer com que eles preponderem muito mais do que as métricas.
O problema é defendermos isso quando nem o básico fazemos, que é a observância aos direitos humanos e a um de seus princípios que mais fundamentais: não causar mais danos.
Defendamos nossa categoria, nossas condições de trabalho, e tudo o que vem nesse bojo, mas que possamos defender o jornalismo também pelo que ele representa de interesse público: um jornalismo consequente, que lança palavras sabendo bem o que está produzindo, e não só dançando conforme a dança.





