O pôr do sol depois da ressaca: feminicídio e a culpa que sobrevive às mulheres

Artigo de Livya Sales*

Minha autora favorita sempre foi Lygia Fagundes Telles. E eu nem sei dizer quando isso começou, porque tem leituras que não chegam com data marcada, elas simplesmente se instalam na vida da gente. Ficam. Voltam. Às vezes anos depois, numa frase que aparece do nada, como se tivesse estado ali o tempo todo, esperando. Em Ciranda de Pedra, livro da mesma autora, existe uma ideia que sempre me atravessou como um eco que não passa: a de que não dá para separar heróis e vilões com tanta precisão, como se a vida fosse limpa, organizada, cada um ocupando seu lugar certo. Como se não fosse tudo misturado. Como se nós mesmos não fôssemos essa mistura, como se existissem coisas puras, organizadas em prateleiras morais.

Acho que, no fundo, foi por causa dessa frase que acabei passando a vida olhando para mulheres que o mundo insiste em classificar. Mulheres boas de um lado. Mulheres erradas do outro. Umas que merecem colo. Outras que parecem já “nascer” (como nas palavras de Simone de Beauvoir) condenadas. Como se existisse um tribunal invisível funcionando o tempo inteiro, decidindo quem merece compreensão e quem merece desconfiança. E talvez tenha sido aí, sem que eu percebesse, que a literatura virou também uma forma de entender a vida. Porque Lygia nunca falou só das personagens. Ela sempre falou da gente.Talvez porque minha trajetória acadêmica tenha sido marcada justamente pelo estudo de mulheres classificadas: boas ou más, dignas ou indignas, confiáveis ou suspeitas. Mulheres colocadas em lados opostos de uma fronteira moral.
Essa divisão me lembra inevitavelmente o universo simbólico presente na obra de Chico Buarque, quando surgem “umas e outras”, categorias femininas que organizam a percepção social. Há sempre mulheres que merecem acolhimento e mulheres que merecem punição.

Foi por causa de um artigo que precisei escrever que retomei o conto Venha ver o pôr do sol. Uma frase me veio aos ouvidos e dialogava com leituras teóricas que eu precisava mobilizar. Voltei ao texto quase por obrigação acadêmica. Eu já o tinha lido muitas vezes. Conhecia a história. Sabia o final. Mas a releitura produziu outra experiência.

A ressaca: entrar na narrativa sem perceber a profundidade

Reler o conto foi como entrar no mar em um dia aparentemente comum. A água parece tranquila. Caminhamos alguns passos. O corpo se acostuma à temperatura. Nada indica perigo. Até que a ressaca vem: uma força invisível, subterrânea, que puxa para longe da margem. Quando percebemos, estamos sendo arrastados.
Essa é a potência literária de Lygia: ela não apenas conta uma história de feminicídio íntimo. Ela constrói uma experiência emocional que nos envolve sem que percebamos. O leitor acompanha o encontro, a conversa, a tensão, e só gradualmente compreende o perigo real. Quando a violência se revela, já estamos dentro dela.

Foi nesse ponto que emerge a percepção mais difícil: a narrativa de Lygia Fagundes Telles nos conduz, quase sem que percebamos, a uma zona de identificação com o agressor. Quando nos damos conta, já fomos implicados. Essa é a verdadeira armadilha estética do conto, não a surpresa do desfecho, mas o espelho que ele ergue diante de nós. Ao partilhar, ainda que por instantes, o campo emocional que circunda o crime, somos forçados a reconhecer como operam nossas próprias hierarquias de simpatia social, por quem sentimos compaixão, sobre quem reduzimos o alerta, quem consideramos digno de escuta.

A literatura, aqui, não absolve o ato violento: ao contrário, desnuda as condições simbólicas que tornam possível examinar a conduta da vítima antes mesmo de nomear plenamente a brutalidade do agressor. O que se revela é menos o criminoso individual e mais o tecido social que o sustenta, nossas predisposições, nossos roteiros morais, nossa facilidade em aderir a narrativas que ordenam o mundo entre merecedores e descartáveis.

O desconforto, portanto, não nasce da justificativa do crime, mas do reconhecimento de que compartilhamos, em alguma medida, o mesmo horizonte afetivo que o torna inteligível. É por isso que olhar por essa lente é detestável, não se trata da personagem, mas a nós enquanto sujeitos e enquanto sociedade.
Quando somos empurrados, quase sem perceber, a procurar na própria vítima alguma explicação para a violência que a atingiu, as perguntas começam a surgir como se fossem naturais: por que ela foi, por que confiou, por que não percebeu, por que agiu de um modo considerado tão fora do esperado? E, de repente, aparece também aquele desconforto mais silencioso, quase inconfessável, quando percebemos que conseguimos nos solidarizar ao drama de certos agentes, ao homem que se diz ferido, humilhado, abandonado. É nesse instante que algo se revela. Não apenas sobre a história, mas sobre nós. Percebemos que fomos ensinados a inclinar o olhar para um lado e não para o outro, a reconhecer humanidade em alguns corpos enquanto a diminuímos em outros. Há uma aprendizagem social operando ali, antiga e profunda, que organiza nossas identificações e nossas condenações. E então nos damos conta de que muitas das certezas que pronunciamos com firmeza talvez não passem de ecos, repetições de uma lógica coletiva que nem sempre é justa, nem sempre é lúcida, mas que continua falando através de nós. Essas perguntas não são inocentes. Elas revelam um mecanismo cultural profundo: a tendência de responsabilizar mulheres pela violência que sofrem.

“Venha ver o pôr do sol”: quando a leitura nos devolve a nós mesmos

Quando voltei ao conto, alguma coisa saiu do lugar dentro de mim. Antes, eu lia como quem reconhece uma história de vingança masculina, dessas em que o ressentimento de um homem conduz tudo até o desfecho. Doía, mas parecia simples de entender. Só que, na releitura, não foi isso que ficou. Foi como se eu tivesse sido puxada para uma corrente mais funda, uma daquelas que a gente não vê da areia. Percebi que a autora não estava falando apenas do gesto final, do crime em si, mas de algo que começa antes, muito antes. Um clima. Um olhar. Um julgamento que vai se formando devagar, quase imperceptível, até que a violência parece apenas a última etapa de um caminho que já estava sendo desenhado. E aí fez sentido de outro jeito: não era só sobre a vingança de um homem. Era sobre o mundo que, aos poucos, torna essa vingança possível. A personagem feminina não é condenada apenas pelo ex-companheiro que não aceita sua autonomia. Ela é também condenada pelo olhar social: inclusive o nosso.

Essa é a dupla condenação. É como se houvesse duas mortes: a primeira, concreta, inscrita no corpo, produzida pela mão de quem agride. A segunda, mais silenciosa e talvez mais persistente, acontece depois, quando a história começa a ser contada pelos outros. Nesse momento, a vítima deixa de ser apenas alguém que sofreu uma violência e passa a ser também um enigma moral a ser decifrado. O foco se desloca. A dor muda de lugar.

E então compreendemos que não basta sobreviver ao agressor; é preciso ainda atravessar o tribunal invisível das percepções sociais, esse espaço onde suspeitas se misturam à compaixão e onde a narrativa pode lentamente devolver à vítima uma parcela da culpa que nunca foi sua. A agressão termina, mas o julgamento continua. E talvez seja justamente essa continuidade que mais assusta: perceber que a violência não se encerra no ato, ela se prolonga no olhar coletivo que reorganiza os fatos até torná-los suportáveis para quem observa de fora. O feminicídio não é apenas destruição física; é reafirmação simbólica de controle.

Quando a ficção encontra a realidade: violência vicária

A potência sociológica do conto se tornou ainda mais evidente diante de um caso recente ocorrido no Brasil, no qual um homem assassinou os próprios filhos em contexto de separação conjugal, situação identificada como violência vicária. O objetivo não era apenas matar crianças, mas atingir a mãe de forma definitiva, destruindo aquilo que constitui seu vínculo afetivo e identitário.

Após o crime, a mulher não apenas enfrentou a perda extrema, mas também hostilidade pública, suspeitas e julgamento social. Precisou de proteção para comparecer ao velório.

Há algo profundamente perturbador na violência vicária porque ela não termina no ato, ela se alonga como sombra, ocupando o cotidiano, os comentários, as interpretações, os silêncios. E, olhando por essa lente quase lygiana, percebe-se como somos conduzidos a um lugar incômodo, aquele em que, sem perceber, começamos a medir a dor da mulher com a régua da suspeita, como se fosse possível encontrar algum equilíbrio entre a morte de duas crianças e um suposto comportamento materno. Não há. Nunca haverá. Ainda assim, o tribunal da internet a fez revisitar sua própria história em busca de alguma parcela de culpa, como se reconhecer falhas pessoais pudesse explicar o inexplicável.

As pessoas não pararam para respirar dentro da tragédia alheia, para imaginar o peso de perder um filho, dois, vidas inteiras interrompidas. Na balança, nada se compara a isso. Claramente, como o homem do conto de Lygia Fagundes Telles, o agressor construiu um cenário: fotos recentes com os filhos, a encenação do pai dedicado, a carta divulgada, a narrativa de humilhação e sofrimento capaz de produzir empatia pública. Tal qual Ricardo, que se apresenta como apaixonado e ferido para legitimar a crueldade, ele precisava parecer um homem que amava demais e que, por desespero, teria ultrapassado limites. No conto, Raquel é levada ao cemitério para ver o pôr do sol e acaba enclausurada, condenada a definhar lentamente. Na vida real, essa mãe também foi aprisionada, mas por outro tipo de tumba: a suspeita social, o julgamento contínuo, a culpa que lhe foi devolvida.

Ela também morrerá aos poucos, em um feminicídio indireto, vivendo dias sem horizonte, sem o seu próprio pôr do sol.

A violência continuou depois do crime, porque seu núcleo simbólico é o mesmo: punição pela autonomia feminina, tentativa de restaurar uma autoridade masculina ferida, destruição do pertencimento e comunicação de poder para além da morte física.

A vítima sob suspeita: quem merece luto?

No caso da violência vicária, essa engrenagem simbólica se torna ainda mais cruel porque a punição atravessa o corpo da mulher sem sequer tocá-la diretamente: atinge aquilo que nela é extensão de vida, de vínculo, de futuro. Quando a tragédia acontece, o que deveria ser apenas horror se converte, aos poucos, em narrativa pública, e a narrativa pede explicações, e as explicações procuram falhas. Foi assim também na cena literária construída por Lygia Fagundes Telles: o agressor organiza o cenário, produz sentido para o ato, antecipa a interpretação alheia. Na vida real, a carta publicada, as imagens cuidadosamente registradas, o personagem de pai ferido oferecido ao olhar coletivo funcionam como roteiro prévio para o julgamento social. E então algo perturbador acontece: a dor absoluta de uma mãe perde centralidade diante da curiosidade moral sobre sua conduta.

As reflexões de Judith Butler ajudam a perceber como o reconhecimento do sofrimento depende de enquadramentos sociais que autorizam ou restringem o luto, enquanto Veena Das demosntra que esse prolongamento da violência no cotidiano, quando comentários, suspeitas e hostilidades passam a integrar a própria experiência da perda. A morte não encerra o acontecimento. Ela inaugura outra etapa, mais difusa, em que a vítima indireta segue sendo ferida, dia após dia, por uma sentença social que não admite recurso. É um tipo de aprisionamento sem muros visíveis, mas com efeitos profundos: viver enquanto tudo ao redor insiste em perguntar se, de algum modo, aquilo poderia ter sido evitado por ela.

É somente quando a porta se fecha que Raquel, a personagem do conto, compreende. Não foi um passeio, nem um reencontro nostálgico, nem uma despedida cordial. Tudo havia sido pensado com antecedência: o lugar ermo, a distância da cidade, o abandono que transforma qualquer grito em eco inútil. Ali não haveria testemunhas, não haveria socorro, não haveria sequer memória. O que se revelava, tarde demais, era um projeto. A rejeição que ele não suportara, o ciúme que fermentara em silêncio, a ferida narcísica de ser substituído por outro homem, tudo se condensava naquele gesto final. Se não podia possuí-la, impediria que qualquer outro a tivesse.
O amor declarado converte-se então em clausura. A promessa vira sentença. Ele a encerra no espaço destinado aos mortos e, paradoxalmente, é ali que sua vontade de domínio se afirma como vitória. Não se trata de impulso momentâneo, mas de uma lógica: punir a mulher que ousou escolher outro destino. O ressentimento encontra forma concreta, e a violência surge como restauração de poder.

A narrativa construída por Lygia Fagundes Telles é precisa ao mostrar que o crime nasce menos do ódio do que da incapacidade de aceitar a autonomia feminina. O homem não suporta a existência de uma mulher que já não o deseja. A rejeição torna-se intolerável porque desmonta a identidade que ele construíra para si. Ao enclausurá-la, ele tenta também aprisionar o tempo anterior, aquele em que ainda acreditava ter controle sobre ela.

O pôr do sol que ela contempla é, ao mesmo tempo, beleza e fim. A luz que se despede do dia anuncia o apagamento de uma vida que continuará existindo apenas como ausência. O cenário de ruína ao redor não é casual: é a materialização do abandono absoluto, um espaço onde até a morte parece esquecida. O grito que ninguém escuta não é apenas físico; é a metáfora de tantas vozes femininas que desaparecem sem testemunho, dissolvidas em silêncios sociais.

E é aqui que a reflexão retorna, inevitavelmente, àquilo que sempre me perseguiu: a necessidade coletiva de classificar mulheres. Há as que são vistas como dignas de cuidado e as que são percebidas como responsáveis pelo próprio destino. Há as que despertam compaixão imediata e as que provocam suspeita. Entre essas categorias morais rígidas, a experiência feminina é continuamente julgada antes mesmo de ser compreendida. Talvez por isso aquela frase da autora sempre tenha ecoado tanto em mim: a impossibilidade de separar completamente bons e maus contrasta com nossa insistência cultural em separar mulheres entre merecedoras e não merecedoras de empatia.

O feminicídio, então, não começa no momento da morte. Ele se inicia muito antes, quando uma mulher passa a ser medida por critérios que autorizam maior ou menor reconhecimento de sua humanidade. A violência final é apenas o ponto extremo de um percurso já pavimentado por julgamentos, hierarquias afetivas e permissões simbólicas.

Ao terminar novamente a leitura, a sensação não foi apenas de tristeza, mas de submersão. Como entrar no mar sem perceber a força da corrente e, de repente, já não alcançar o chão. A história arrasta porque revela que o mecanismo que permitiu aquela morte continua ativo fora da ficção. A água sempre esteve ali, profunda, movendo-se sob a superfície tranquila do cotidiano.

Talvez a dor maior venha justamente desse reconhecimento: não estamos apenas observando o mar. Estamos dentro dele.

 


*Livya Sales é doutoranda e mestra em Sociologia, professora e advogada, com atuação nas áreas de violência de gênero, feminicídio e crimes sexuais.
Pesquisa os estereótipos de gênero e o tratamento dado às vítimas pelo sistema de justiça. Articula sociologia, direito e vitimologia na defesa dos direitos das mulheres e de uma justiça com perspectiva de gênero.

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