Resumo

Atuar com jornalismo ambiental em tempo de crise climática, desmantelamento da legislação ambiental, e exploração violenta e voraz contra os territórios, requer demais da gente. Começo pela angústia em reconhecer que mostramos muito menos do que a realidade interpõe: seja por depararmos com um cenário complexo em que a gente não entende ou não consegue expressar de forma completa o que há de errado ali; seja porque nem sempre podemos publicar o que vítimas de racismo ambiental nos anunciam, porque isso implicaria em expô-las a situações arriscadas, e a regra número 1 na defesa dos Direitos Humanos é não incutir ainda mais risco a quem já está em situação de risco.
Para todos esses desafios, vamos encontrando alternativas. A gente vai estudando e conhecendo melhor as leis (humanas e da natureza) com o tempo. Vamos montando também, ao longo das andanças, um banco de fontes de ambientalistas e especialistas que, com generosidade e compromisso genuíno, nos ajudam a traduzir e informar sobre as violações. Anonimizamos as fontes e conseguimos respaldar suas informações com dados, imagens, e análises. Enfim. De um jeito ou de outro, demore o tempo que for, conseguimos a história.

No entanto, há um enfrentamento mais difícil de driblar: atuar com jornalismo ambiental é caro. Se você trabalha dentro de um veículo independente, é mais caro ainda, porque dependemos de bolsas, doação coletiva, ou dos nossos próprios bolsos e tempo livre, para viabilizar certas matérias.

Afinal, uma reportagem de fôlego exige que estejamos em lugares mais distantes, ou de difícil acesso, ou em áreas tomadas pela especulação imobiliária ou turística, que têm a carestia como consequência e estratégia (estratégia, inclusive, para afugentar a comunidade local).
Então eis que o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) decide abrir um prêmio de jornalismo ambiental. O que pareceu para muitos jornalistas uma oportunidade animadora, logo foi se revelando como a indução a um verdadeiro banho de chapa-branca à categoria.
[Chapa-branca, no jornalismo, refere-se à imprensa dependente de dinheiro de governos, que entrega, em troca, a publicação de conteúdos elogiosos ao poder público em questão, ou no mínimo sem críticas a ele].
Que prêmio do IMA é esse?

Soube desse prêmio do IMA já por outra treta, se assim podemos chamar. Colegas mais atentos vieram relatar que o Instituto, que é uma autarquia estadual em Alagoas, está exigindo a adimplência de jornalistas junto ao sindicato, excluindo, portanto, outros profissionais regularmente habilitados de concorrer ao certame e que não estejam sindicalizados, e mais que isso, com pagamento em dia. Para quem não sabe, o piso em Alagoas é um dos maiores do país, mas para quem também não sabe, é uma minoria da minoria os que de fato recebem o montante.
O pagamento das mensalidade do sindicato tem importância indiscutível para as nossas lutas, mas trata-se, aqui, de um critério pouco acessível para grande parte dos jornalistas que – ainda que não estejam desempregados, o que lhes garantiria isenção- têm convivido com toda sorte de subempregos, ataques, demissões em massa, retaliações à greve, trabalho precarizado, pejotizado, enfim. Fui informada, inclusive, que colegas já procuraram o Ministério Público Estadual para denunciar como esse critério do concurso fere princípios constitucionais, como a impessoalidade, a isonomia e a livre-associação.
Chapa-branca que nem disfarça
Ao saber desse conflito, decidi me debruçar mais sobre o edital do IMA. Foi então que deparei com outras questões que, mais do que graves, entendo serem inaceitáveis do ponto de vista do jornalismo ambiental. A chapa-branca é evidente quando o edital revela, em suas primeiras linhas, que sua finalidade é:
- Incentivar a cobertura jornalística de temas ambientais em Alagoas, com foco nas ações desenvolvidas pelo IMA;
e mais à frente:
• Ampliar a visibilidade das atividades institucionais e ambientais no estado.
Será que entendi direito? É para falar de jornalismo ambiental, porém focando em conteúdo promocional, no que o IMA tem feito, ampliando a visibilidade das “atividades institucionais” (do órgão)?
O edital responde, destrinchando as pautas que ele quer:
“Matérias sobre Unidades de Conservação geridas pelo IMA no território alagoano, com base nas categorias do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), sejam de proteção integral ou uso sustentável.
…
Cobertura de ações de proteção, resgate, reabilitação ou monitoramento da fauna silvestre em Alagoas, realizadas pelo IMA.
…
Reportagens que tratem da preservação da flora nativa, reflorestamento, espécies ameaçadas ou manejo sustentável, no contexto da atuação do IMA.
…
Reportagens que abordem ações e programas de educação ambiental promovidos ou apoiados pelo IMA em Alagoas.”
Sim, entendi mesmo direito. Parece-me, inclusive, que o próprio realizador do edital já previa estranhamentos como o que trago aqui, ao acrescentar que serão desclassificados trabalhos que: (…) “Ridicularizem o prêmio ou fujam das temáticas previstas neste edital.”
[Bem, se lhes servem de consolo, este artigo não será submetido a prêmio nenhum]
Para finalizar, traz mais uma informação: a comissão julgadora será composta, entre outros profissionais, por integrantes do Governo do Estado (SECOM) e do próprio IMA.
Confira o edital completo no linkConfira o edital completo no link
Branca aqui só a raiz do cabelo

Não faltam pautas de jornalismo ambiental em Alagoas. Do litoral norte ao sul, a especulação imobiliária e determinados setores do mercado turístico vêm devassando os territórios de mar, rio e lagoa, sob intensa permissividade de órgãos públicos. Comunidades pesqueiras têm sido afastadas e moradores locais expulsos pela pressão do grandes empreendimentos. Paraísos têm se tornado canteiros de obra, peixes-bois são mortos, mangues são soterrados. A mineração segue como pauta atualíssima. Não bastasse o desastre socioambiental causado pela Braskem, ainda em curso, Alagoas é tragada por mais um episódio de mineração que sufoca a comunidade em Craíbas.Há avanço de projeto de estocagem de gás, e mais e mais ataques no subsolo, no solo, na águas. Não esqueçamos do ar: há pulverização de agrotóxicos também.

Onde o IMA tem estado em todas essas situações? Até o momento, estampado nas placa de licenciamento para as construções em áreas que deveriam estar sendo preservadas; encontro o nome de seus gestores indiciados (e ainda assim mantidos no cargo) por participação no crime cometido pela Braskem. Encontro o IMA na boca do povo, de um povo – aliás – que tenta procurá-lo constantemente para realizar denúncias e não consegue. Logicamente, em todas as matérias que fizemos – e em todas que fizermos – ao IMA é dado o direito de resposta. Há muito o que se questionar, há respostas a serem dadas. Há até fatores que podemos adiantar por aqui: servidores comprometidos, um contexto de desmonte da fiscalização ambiental que perpassa pela falta de estrutura que o órgão enfrenta…
No entanto, pesar estas questões é uma coisa, silenciar sobre tudo isso para escrever algo que caiba num “prêmio de jornalismo ambiental” profundamente problemático é outra conversa totalmente diferente. É um assunto que, aliás, não podemos nos deixar mais levar. Afinal, de branca aqui só a raiz do cabelo, que insiste em aparecer para me lembrar que não posso mais ser ingênua, porque isso significa também virar as costas para um jornalismo ambiental que clama a todos nós urgência e visibilidade, diante de problemas graves demais. Tomando por base o mestre Chico Mendes na máxima de que “ecologia sem luta de classes é jardinagem”, fico a me perguntar como poderíamos definir o jornalismo ambiental sem criticidade: folhetim de floricultura, talvez.





