
Renan Filho (MDB) anunciou publicamente sua intenção de disputar novamente o governo de Alagoas em 2026, durante evento realizado em Arapiraca. A decisão representa não apenas uma movimentação eleitoral, mas um convite à análise crítica do seu legado como governador entre 2015 e 2022, período que atravessou os governos federais de Dilma Rousseff (PT) Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), além de incluir o auge da pandemia da Covid-19.
Em 2021, Alagoas registrava um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, com 0,684, superando apenas o Maranhão e situando-se muito abaixo da média nacional de 0,761. Já em 2023, a renda per capita alcançou cerca de R$ 1.110, mas essa média escondia desigualdades abissais: mais da metade da população vivia com R$ 406 ou menos por mês, e os 50% mais pobres concentravam menos de 18% da renda total gerada no estado. Esses dados revelam que o crescimento econômico em Alagoas, ainda que pontual, não resultou em distribuição de renda efetiva.
Na área da segurança pública, os números também desautorizam qualquer leitura triunfalista. O estado registrou 1.194 homicídios dolosos em 2023, o equivalente a uma taxa de 31 por 100 mil habitantes, quase o dobro da média nacional. Ainda que haja oscilações nos números ao longo dos anos, a violência permanece como um problema estrutural, sobretudo em regiões marcadas por exclusão social histórica.
A fome é talvez o dado mais alarmante desse cenário. Em 2022, Alagoas liderou o país em insegurança alimentar grave, com aproximadamente 36,7% dos domicílios nessa condição. Em 2023, segundo a PNAD Contínua, cerca de 36,2% dos lares do estado ainda conviviam com algum grau de insegurança alimentar, seja leve, moderada ou grave. Apesar do Brasil ter deixado o Mapa da Fome da FAO ao atingir, como país, um índice médio de subalimentação inferior a 2,5% da população, regiões como Alagoas seguem com percentuais dramáticos e incompatíveis com qualquer comemoração.
Se os indicadores de Alagoas fossem considerados como parâmetro médio nacional, é possível afirmar que o Brasil não estaria apto a sair do Mapa da Fome. Quase metade dos domicílios no estado ainda enfrenta alguma forma de privação alimentar, revelando um abismo entre o discurso técnico e a realidade vivida nas regiões mais vulneráveis.
O município de Murici, por exemplo, é um retrato emblemático dessa contradição. Com IDH de apenas 0,527, um dos piores do estado, a cidade enfrentou durante a pandemia uma situação emergencial tão crítica que demandou a distribuição mensal de cerca de 2 mil cestas básicas para suprir necessidades alimentares da população. Em vez de representar um caso isolado, Murici simboliza a continuidade da pobreza crônica sob a superfície da governabilidade.
Diante desse cenário, torna-se essencial questionar o conteúdo das afirmações recorrentes de que Alagoas teria experimentado, sob a gestão passada, o “melhor governo da sua história”. Melhor para quem? Para quais setores? Porque, para a ampla maioria da população, especialmente trabalhadores urbanos e rurais, mulheres chefes de família, juventudes negras e moradores das periferias, os dados demonstram que houve mais continuidade na exclusão do que ruptura com ela.
Não basta ser o melhor entre os piores. Diante de uma trajetória marcada por pobreza estrutural, desigualdade histórica e abandono institucional, mudanças pontuais e indicadores localizados não alteram o essencial: a reprodução de um modelo que administra a miséria sem enfrentá-la. Quando há crescimento, ele tende a ser apropriado pelas elites locais, em vez de distribuído de forma justa e transformadora. Quando há redução pontual da violência, ela não altera as causas que a alimentam.
O discurso de modernização, ancorado na tecnocracia, frequentemente serve para camuflar a manutenção de uma ordem social baseada na concentração de renda e poder político. Não é incomum que a linguagem da gestão eficiente sirva como verniz para proteger estruturas oligárquicas profundamente enraizadas.
Durante seu governo, Renan Filho autorizou a concessão dos serviços públicos de saneamento básico à iniciativa privada, incluindo o fornecimento de água, coleta e tratamento de esgoto, hoje controlados pelos péssimos serviços da BRK Ambiental. Também foi protagonista nas tratativas relacionadas à privatização da Companhia Energética de Alagoas (Ceal), cuja transferência à iniciativa privada ficou condicionada, à época, ao ressarcimento de débitos da União com o estado. Mesmo assim, o governo demonstrou alinhamento com a proposta de venda da empresa, que havia sido federalizada em 1998 e era então operada pela Eletrobras. Essas ações apontam para uma lógica de transferência de ativos públicos estratégicos sem debate profundo com a sociedade e sem garantias de melhoria efetiva para a população mais pobre, que hoje sofre com serviços precários e tarifas elevadas.
O retorno de Renan Filho ao governo de Alagoas não deve ser encarado como um movimento natural. Ele representa a tentativa de retomada de um projeto que, ao longo de quase uma década, não conseguiu ou não quis enfrentar de modo estrutural os principais desafios do estado. E, de fato, sua volta não marca uma ruptura, mas a sequência de um ciclo que nunca foi interrompido. Desde que Renan Filho deixou o cargo em 2022, faltando nove meses para o fim do mandato, quem ocupa o governo é um aliado de primeira ordem: Paulo Dantas (MDB), leal servidor do mesmo grupo político e continuador fiel do modelo anterior. Em nenhum momento sua gestão representou melhorias efetivas ou sinalizou distanciamento real em relação às práticas adotadas pelo antecessor.
A eleição de 2026, portanto, não será apenas mais um processo eleitoral. Ela colocará em disputa o passado recente, o presente em crise e a possibilidade de um futuro que rompa com a lógica de privilégios. Se Alagoas repetir a mesma receita, o resultado tende a ser o mesmo: violência, desigualdade, fome e exclusão.

Alexandre Fleming é professor do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), onde atua há quinze anos nas áreas de História e Educação. É graduado em História e mestre em Educação pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Já foi presidente do Sintietfal e coordenador-geral do Sinasefe Nacional. É também membro da Rede Nacional de Proteção de Jornalistas e Comunicadores.





