Tire uma foto “inesquecível” e aproveite para esquecer a história da sua cidade

Remoção forçada provocada pela Prefeitura de Maceió contra a Vila dos Pescadores de Jaraguá, em 2015. Foto: Alexandre Fleming

Tomei conhecimento da nova ideia ‘instagramável’ de JHC por uma publicação irretocável da professora Alycia Oliveira, em perfil da Bancada Negra, com a provocação cirúrgica: “que história é contada nas imagens espalhadas pela paisagem da cidade de Maceió?”.

Quando vi a postagem enviada a nós, estava cobrindo uma audiência pública que pontua o esforço conjunto de órgãos públicos, movimento negro e povos de terreiro para mudança do nome de Fernandes Lima, o grande articulador do Quebra de Xangô em 1912. O principal objetivo da mobilização é promover uma justiça histórica  contra o centenário de esvaziamento massacrante que faz um assassino oportunista e racista religioso ser homenageado, nomeando a principal avenida da cidade.

Impossível não ter notado essa contradição: Enquanto coletivos debatem ações que podem devolver certa dignidade à cidade, honrando sua história, visibilizando suas feridas e demarcando sua resistência, os planos da Prefeitura de Maceió são outros: apagar, enfeitar com adornos aleatórios e – se bem calhar – até criar novos imaginários sobre escombros reais. Escombros que, cá para nós, ainda doem nas vítimas que ainda estão vivas e cheias de memória.

Há pouco mais de 10 anos, a Prefeitura de Maceió – articulada com outros poderes públicos,  Sistema de Justiça, políticos locais e segmentos econômicos -, promoveu uma das remoções forçadas mais violentas contra a comunidade histórica de marisqueiras e pescadores artesanais da Vila dos Pescadores de Jaraguá.

Foram inúmeras violações aos Direitos Humanos  produzidas inclusive por pareceres absurdos, por decisões judiciais inaceitáveis. Todas denunciadas em diversas instâncias por entidades e movimentos sociais, numa ação que vai ficar na memória de uma comunidade que perdeu seu ponto de cultura, seu espaço próprio de estaleiro artesanal,  a vida comunitária de quem vivia no lugar do trabalho e trabalhava no lugar que vivia (pois não havia uma separação nessa dinâmica). A comunidade teve seu território  devassado. O mesmo território que orientava seus dias e noites, onde cuidavam de suas crianças, assim como fizeram suas mães, avós, bisas, tataravós e talvez tetras.

 

Quem foi vítima da violência de ser expulsa ou expulso violentamente da enseada em que nasceu e se criou carrega no corpo e na mente o que aconteceu. Muitos dos que presenciaram e se aliaram à comunidade pesqueira também não deixaremos que essa memória se apague. Estão inteiras em fotografias, nas histórias que contamos, nas músicas, nas reportagens, em material acadêmico, em trabalhos artísticos (de verdade). Só não estão nas gestões públicas que passam por aqui.

No lugar da Vila, primeiro construíram um centro pesqueiro com uma lógica de trabalho criada por entidades, por terceiros, que desrespeitou completamente o saber-fazer da pesca artesanal.

De mão em mão, a mão branca de JHC não é a única violenta. Por lá já passaram gestões anteriores de diversos espectros políticos cravando suas próprias estacas contra a comunidade: Ronaldo Lessa e  Kátia Born com projetos de reurbanização que já puxavam para o “turismo”, promessas descumpridas com a comunidade, e ações confusas; Cícero Almeida com difamação, mentiras, ação judicial, e o plano megalomaníaco de uma “marina”; Rui Palmeira com o toque final da violência policial e tratores sobre as marisqueiras e pescadores.

A mão branca de Caldas Jr é, agora, mais uma que enfeita as desgraças com esculturas de gosto duvidoso, e equipamentos para turista ver. Enquanto isso, nos convida a tirarmos fotos e desfigurar as histórias de quem antes esteve aqui.

Pois então, declino o seu convite de tirar “aquela foto inesquecível”, porque inesquecível mesmo – para seu pesar, prefeito – são as histórias que nos acumulam e que deixarão registrado – aqui, ali, e felizmente em muitos e diversos outros lugares – o que vocês se esforçam com tanto concreto para apagar.

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