Ufal realiza diplomação póstuma de estudantes mortos pela Ditadura Militar na Bienal do Livro de Alagoas

Cerimônia ocorre no dia 9 de novembro no Centro de Convenções de Maceió, no Jaraguá
Professora Emanuelle Rodrigues lê requerimento. | FOTO: assessoria.

No domingo (9), a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) realizará a diplomação póstuma de três estudantes perseguidos e mortos pela Ditadura Militar (1964-1985),  na 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas. A solenidade ocorrerá às 10h, na Sala Ipioca, localizada no Centro de Convenções de Maceió, e contará com a presença de familiares dos estudantes mortos, autoridades, comunidade acadêmica e  membros da sociedade civil. O evento será gratuito e não precisa de inscrição prévia.

Seguindo o exemplo de outras universidades do país que homenagearam a trajetória de luta dos jovens que foram mortos lutando por justiça e democracia na Ditadura, a Ufal concederá a outorga de grau em cerimônia exclusiva de colação de grau. Serão diplomados postumamente José Dalmo Lins, Gastone Beltrão e Manoel Lisboa, os primeiros estudantes identificados como vítimas de perseguição e repressão do Estado que culminaram em suas mortes precoces. Os familiares receberão as honrarias, constituindo-se este o primeiro ato reparatório da instituição em quatro décadas desde o fim do regime no Brasil.

Consuni discute pauta sobre diplomação póstuma de estudantes mortos pela Ditadura no dia 1º de abril de 2025. Foto: Renner Boldrini.

A diplomação foi aprovada em sessão histórica do Conselho Universitário (Consuni) no dia 1º de abril de 2025 após solicitação (em anexo) de pauta pelas docentes conselheiras Iracilda Moura (ICBS) e Emanuelle Rodrigues (ICHCA). A cerimônia será a última fase do processo envolvendo os três discentes, que foi precedido pela admissão da reintegração, também autorizada pelo pleno. Isso foi necessário porque houve afastamento das atividades acadêmicas em virtude das perseguições, impedindo a conclusão dos cursos.

Conselheiros e membros da sociedade civil em reunião do Consuni. Foto: Renner Boldrini.

José Dalmo, Gastone Beltrão e Manoel Lisboa eram, respectivamente, estudantes de Direito, Economia e Medicina. Atuavam na luta pelo fim do regime que se estendeu por 21 anos e suspendeu direitos civis, liberdades e a vida de mães, pais, filhos e amigos. Todos os três, assim como milhares de outros brasileiros, foram raptados das ruas e submetidos a torturas e suplícios nas mãos de agentes repressivos do Estado Brasileiro durante o regime. Seus legados de resistência perduram até hoje, e, agora, serão reconhecidos como egressos honorários da Ufal.

Para Emanuelle Rodrigues, presidenta da Comissão da Memória, Verdade, Justiça e Reparação (CMVJR) e uma das autoras do pedido, “a diplomação é um rito necessário que não só homenageia os alunos que deram a vida em nome da luta por democracia e justiça, mas é também um ato simbólico de reparação aos seus familiares (o primeiro, espero) e compromisso com a verdade. A atitude foi acertada, ressaltou a professora, demonstrando um posicionamento corajoso da comunidade acadêmica e seu respeito pela história.

A conselheira e professora Emanuelle Rodrigues lê requerimento enviado ao Consuni com pedido de diplomação póstuma. Foto: Renner Boldrini.

Na avaliação do Reitor da Ufal, professor Josealdo Tonholo, “a diplomação post-mortem dos estudantes que tiveram suas vidas e trajetórias interrompidas pela violência da Ditadura Militar é um ato de justiça fundamental. Honramos a memória de Gastone Beltrão, Dalmo Lins, Manoel Lisboa e outros jovens alagoanos que, em nosso campus, ousaram lutar por um país mais justo e livre, pagando com a própria vida”, afirma.

Tonholo destaca que a solenidade de diplomação é um reconhecimento tardio, mas fundamental para que a instituição possa reavaliar suas ações passadas e assumir um posicionamento comprometido com a defesa dos direitos humanos e da democracia. A criação da Comissão da Verdade da Ufal foi fundamental, defende o Reitor, pois “seu o papel é justamente investigar sobre as violações de direitos humanos dentro da nossa universidade, resgatar acervos, identificar responsabilidades e garantir que tais atrocidades jamais se repitam”, conclui.

Reitor professor Josealdo Tonholo preside sessão histórica do Consuni. Foto: Renner Boldrini.

Comissão da Verdade da Ufal apresenta primeiros resultados com foco em comunicação e informação

O evento é parte das ações da CMVJR-Ufal, criada na mesma sessão que aprovou a diplomação, cujo objetivo é investigar as violações de direitos cometidos contra estudantes e servidores da Universidade, assim como propor ações reparatórias. Na ocasião, também será lançado o site oficial da Comissão para que a sociedade possa acompanhar o processo de investigação e o resgate da história institucional da Universidade e de sua comunidade nos anos da Ditadura. Até lá, o público pode acompanhar as novidades através da página oficial no Instagram (@comissaodaverdadeufal).

A diplomação dos três estudantes marca o início do debate sobre as investigações dos atos institucionais no período da Ditadura Militar. Nesse sentido, explica a presidenta da Comissão, Emanuelle Rodrigues, “é possível que sejam identificados outros casos, o que será concluído pelo menos em um período de dois anos, podendo se estender para quatro, conforme Resolução do nosso Regimento Interno (em anexo), aprovada no Consuni”.

O Relator da CMVJR-Ufal, professor Rodrigo Alcântara (Campus Sertão), historiador com vasta pesquisa sobre a Ditadura Militar em Alagoas, apresentará o relatório à Comissão para apreciação e deliberação ao final dos dois primeiros anos regimentais. Caso considere necessária a ampliação do prazo de investigação, a presidência poderá solicitar ao Consuni a extensão do período por tempo igual ao período inicial.

À frente do Grupo de Trabalho (GT) de Comunicação, Emanuelle, que é docente do Curso de Relações Públicas e do mestrado em Comunicação vinculado ao ICHCA, conta com uma equipe de colaboradores que tem atuado no planejamento e execução de atividades de comunicação e eventos da Comissão. Além disso, contará com um eixo temático de levantamento de dados sobre a comunicação institucional, interna, administrativa, política e de imprensa sobre casos ligados a perseguidos políticos da Ufal.

A Comissão também possui o GT de Acervos, composto predominantemente por membros dos cursos de História, Ciências Sociais e Serviço Social, além de técnicos e estudantes da coordenação do Diretório Central dos Estudantes (DCE) Quilombo dos Palmares. As atividades de mapeamento de setores com documentos necessários já foram iniciadas. Além disso, a CMVJR tem realizado reuniões periódicas para planejamento, discussão e realização de depoimentos. Atualmente, está nos trâmites junto à Universidade para publicação de edital de bolsas para alunos de graduação comporem a Comissão e ajudarem nos trabalhos da equipe.

40 anos após fim da Ditadura Militar, familiares recebem diplomas

Professora do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS), Iracilda Moura é marcada até hoje pelas lembranças de seu tio Manoel Lisboa no cotidiano familiar, sequestrado pelos militares quando ela ainda era uma criança. Em relato histórico durante a reunião do Consuni que aprovou a diplomação, Iracilda resgatou memórias afetivas com seu tio que ressoam no seu presente. “É preciso manter viva a memória daqueles que de forma compulsória sacrificaram sua vida pela democracia e por condições dignas para o povo brasileiro. Esta diplomação é uma iniciativa de destaque para manter presente a memória de Manoel Lisboa de Moura, 52 anos após sua morte.”, ressaltou.

Sobrinha de Manoel Lisboa, a conselheira e professora Iracilda Moura dá depoimento emocionante sobre a partida repentina de seu tio. Foto: Renner Boldrini.

O jornalista, chargista e ilustrador Ênio Lins, familiar do estudante José Dalmo Lins, considera a decisão da Universidade de suma importância. “Trata-se de um gesto de justiça histórica e de cidadania, posto ter sido a Universidade, como um todo, vítima daquele sistema ditatorial. Ao diplomar alunos e aluna que perderam a vida e tiveram seus cursos interrompidos pelo terrorismo de Estado, a Ufal ministra uma verdadeira aula magna de cidadania e democracia e se reafirma independente, autônoma, consciente de seu papel educacional e histórico.”, destacou.

Jornalista Ênio Lins representa a família do estudante Dalmo Lins e fala de momento histórico. Foto: Renner Boldrini.

Para o irmão de de Gastone Beltrão, o engenheiro civil e político com longo histórico de atuação no Estado de Alagoas, Thomáz Beltrão, “a entrega deste diploma enche a nossa família de orgulho e é também uma reparação histórica que a Universidade está fazendo com esses jovens. Jovens que têm o seu papel histórico reconhecido, que lutaram de forma destemida, que verteram seu sangue em prol da democracia, da liberdade e da educação pública, gratuita e de qualidade para todos os brasileiros, que é o caminho que a gente tem que trilhar”, concluiu.

Irmão mais novo de Gastone Beltrão, o engenheiro e político Thomaz Beltrão relata memórias de sua infância e o legado histórico de sua irmã. Foto: Renner Boldrini.

Estudantes que receberão a homenagem através de seus familiares

José Dalmo Guimarães Lins – Era estudante da Faculdade Direito na Ufal quando foi expulso sob a acusação de envolvimento com atividades subversivas. Ele também atuou como militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) . Foi duramente torturado, o que impactou profundamente em sua saúde física e mental, o que o levou ao suicídio em 11 de fevereiro de 1971, no Rio de Janeiro.

Gastone Lúcia de Carvalho Beltrão – Era estudante da Faculdade de Economia da Ufal e militante da Juventude Estudantil Católica (JEC) . Capturada e torturada pelos militares, Gastone foi morta em 22 de janeiro de 1972 por agentes do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (DOPS-SP).

Manoel Lisboa de Moura – Era estudante da Faculdade de Medicina da Ufal e teve uma intensa atuação política como aluno e militante, atuando na União Nacional dos Estudantes (UNE), na Juventude do PCB, no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), e, posteriormente, no Partido Comunista Revolucionário (PCR) . Foi preso, torturado e viveu na clandestinidade, até ser capturado e torturado até a morte, em 4 de setembro de 1973.

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