
Morreu na noite desta sexta-feira, 12 de dezembro, Maria José da Silva, mãe do jovem Davi da Silva, desaparecido há 11 anos após ter sido levado por policiais militares em uma viatura, no bairro do Benedito Bentes. Há 11 anos travando batalha por justiça, dona Maria José não resistiu a complicações cardíacas. De acordo com familiares, aguardava há meses, pelo SUS, a liberação para a troca de marca-passo.
A morte de dona Maria José acontece dois meses após ter recebido mais um duro golpe do judiciário alagoano. Em decisão monocrática, o desembargador da Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Alagoas, Tutmés Airan de Albuquerque, recuou a decisão que mantinha marcado para 13 de outubro o Tribunal de Júri dos militares acusados de torturar e matar o adolescente Davi da Silva, de 17 anos.
A decisão foi publicada uma semana antes do júri popular, momento que vinha sendo intensamente esperado por dona Maria, familiares e amigos de Davi, além de diversas entidades vinculadas aos Direitos Humanos no Estado. Após a decisão, seguem em liberdade os policiais militares Nayara Silva de Andrade, Victor Rafael Martins da Silva, Eudecir Gomes de Lima e Carlos Eduardo Ferreira dos Santos, até um julgamento que, agora, não há qualquer data prevista para acontecer. A reviravolta e mais detalhes sobre o processo foram publicadas na Mídia Caeté. Clique aqui para acessar.
Davi desapareceu há 11 anos, em 25 de agosto de 2014, após ter sido levado em viatura por uma equipe do Batalhão da Radio Patrulha da Polícia Militar (BPRP), no Conjunto Cidade Sorriso I, localizado no Benedito Bentes. O jovem estava acompanhado de Raniel Victor Oliveira da Silva, principal testemunha, que foi encontrado morto meses após o desaparecimento forçado de Davi.
Desde então, embora os policiais tenham sido identificados, o processo percorreu longa trajetória até o que deveria ter sido, nesta segunda-feira, seu desfecho: o Tribunal de Júri que havia sido marcado pela 8ª Vara Criminal da Capital. Ao longo do tempo, uma série de recursos foi pleiteada pela defesa, incluindo a revogação de medidas cautelares a partir de habeas corpus, que finalmente os colocou em liberdade. Mais do que isso, testemunharam até mesmo honrarias destinadas aos acusados de tortura contra Davi. Assim, em 2018, por exemplo, o então governador de Alagoas Renan Filho (MDB) promoveu um dos policiais, Victor Rafael Martins da Silva, à patente de cabo, por “ato de bravura”, mesmo sob contrariedade da Comissão de Promoção de Oficiais e Praças (CFOP) e sem explicar qual foi a “bravura” em questão.
Brava Dona Maria José, vítima do Estado
Já dona Maria, em sua longa luta por justiça – primeiro pelo retorno de seu filho; depois, por respostas e, finalmente, pela responsabilização dos assassinos – enfrentou dificuldades do início ao fim. Percorreu trajetos intermináveis entre instituições, disponibilizou-se à imprensa, sempre com a foto de seu filho nas mãos. Em troca, recebeu como resposta longas esperas, uma montanha-russa de notícias, e um Judiciário que atuou em benefício da liberdade dos réus.
Além de todo o sofrimento desencadeado pelo desaparecimento forçado e por toda a via crucis no sistema de justiça, ainda chegou a ser atingida com um tiro na cabeça, em 2014, ano em que Davi desapareceu.
Ao comunicar sobre a morte de dona Maria, seu sobrinho, o professor Magno Francisco declarou:
“Dona Maria José, minha tia, mãe do jovem Davi da Silva, desaparecido há 11 anos morreu hoje sem ver o julgamento dos PMs que (conforme apontam as investigações) sequestraram o seu filho no Benedito Bentes. O caso seria julgado há um mês, mas uma decisão do desembargador Turmés Airan adiou o julgamento que ficou sem data prevista. Dona Maria morreu porque estava esperando há meses a troca do seu marca-passo. Graças À precarização imposta ao SUS e por ser pobre, o coração dela não aguentou e parou. Dona Maria é mais uma vítima do Estado liberal, do seu aparelho de repressão contra os pobres e do sistema capitalista, de conjunto”, relatou o primo de Davi.
O velório acontecerá neste sábado, 13, a partir das 8h, no memorial Parque das Flores do Benedito Bentes. O enterro está previsto para 11h.





