
A segunda edição do ‘Fala, Bolacheira!” tem aquele tipo de programação construída para reunir, no mesmo lugar, uma rede de diálogos, letramento, acolhimento e celebração ao dia da Visibilidade Lésbica. Programado para 29 de agosto, no Theatro Homerinho, em Jaraguá, o evento é gratuito e abre suas inscrições a partir do dia 20, no perfil do instagram do evento: @bolacheiralab .
Com um título demarcador e representativo, o Fala, Bolacheira! é exclusivo para o público a qual se destina, conforme descreve uma de suas organizadoras, a jornalista e pesquisadora Cintia Ribeiro. “É para mulheres que amam mulheres, e que têm mais de 18 anos. Não é um evento para mulher cis e hétero, porque queremos trabalhar com letramento, mas falando para as nossas, com as nossas, falando de dentro, nesse momento. Ao mesmo tempo, também queremos que funcione como uma rede de apoio para fortalecer o discurso da visibilidade e de quem somos”, explica.
O caráter mobilizador da atividade também é levantado quase como que inerente à própria condição de ser lésbica e sáfica numa conjuntura desafiadora de silenciamentos e Lgbtfobia. “Não tem como não ser uma demanda política, social e existencial, por direitos. Tudo é político, mas assumir o ‘bolacheira’ é muito político. A linguagem é uma possibilidade de significar um termo que sempre foi usado contra nós, trazendo um sentido muito positivo”, afirma.

A positividade reflete no cronograma do evento, que já começa a contar a partir das 18h, com a DJ Clariar. Na sequência, haverá uma roda de conversa com a ginecologista Paula Vilela; a promotora de Justiça do Ministério Público de Alagoas, Alexandra Buerlen; a pesquisadora da UFAL, Andréa Pacheco; e a advogada do Centro de Referência LGBTQIA+, Amanda Alexandre. O evento oferece, ainda, um micro-treino de mobilidade bem bolacheiro, com a personal trainer Karine Campos , além de pocket shows de Fernanda Guimarães e da rapper Huná.

Nesta segunda edição, o evento mantém o caráter intergeracional do primeiro, o que foi possibilitado desde sua organização a partir de uma parceria junto à equipe que realiza a Festa das Sáficas, e deve garantir diversidade de linguagens e manifestações culturais. A diferença em relação ao primeiro, porém, é o tema que norteia a atividade: ‘Parem de nos matar’.
“Sabemos que avançar para este tema só foi possível porque tivemos uma primeira edição com uma perspectiva de pautas mais abertas, refletindo como mulheres lésbicas e sáficas, são documentadas e lidas pela mídia, como nossa memória é preservada, como somos silenciadas, como o mercado silencia, como a saúde mental nos afeta”, declara, “mas a gente está levando para essa edição também sutilezas”, garante.
Sutilezas debatidas com dados e evidências, aliás, de acordo com a pesquisadora. “Existem pesquisas mostrando que os maiores índices de violência contra as mulheres lésbicas acontecem dentro da família. Há ainda diversos dados importantes que serão levantados e debatidos no evento”. Entre os diálogos previstos, haverá temas como violência institucional, assistência à saúde da mulher, e acesso à justiça por exemplo. “É nesse sentido que a gente vê a múltipla função dessa demanda que é o tema desta edição, o ‘Parem de nos matar’, uma vez que nos matam quando nos silenciam, quando nos invisibilizam, quando nossos desconfortos não são levados em consideração, e quando somos alvos de faca”, comenta.
Ao refletir sobre as diversas formas de atravessamento da violência contra mulheres lésbicas, sobretudo no que diz respeito a cor e raça, classe social e território, a organizadora do evento e pesquisadora pontua o subregistro como a própria informação em si.
“A gente vem muito a reboque de diagnósticos do que acontece com mulheres de modo geral. Temos um avanço grande na geração de dados da violência física contra as mulheres, mas a gente praticamente não entra muito na estatística. Entra como feminicídio, o que só mostra como continuamos enquadradas por esse atravessamento de gênero. Não somos nem dado ainda. Existe carência de pesquisa e isso reflete na falta de políticas públicas para comunidade LGBTQIAPN+. Nós temos o LesboCenso, mas é uma iniciativa que parte de organizações que trabalham com isso. É diferente de haver, de fato, políticas públicas de Estado”, ressalta.

Ao pensar na conjuntura entre as gerações, Cíntia também destaca a importância de evidenciar com as experiências também são atravessadas por opressões distintas, mesmo com o passar do tempo. “De forma superficial, é possível dizer que mudou muito, porque efetivamente tivemos alguns avanços no direito de circular, habitar e coabitar. No entanto, ao mesmo tempo, a gente tem um aumento absurdo de violência que nos afeta diretamente. Eu, como mulher preta, quando penso em uma filha ou filho preto, a gente tem muito mais medo. Da mesma forma, se eu tivesse filha bolacheira, se ela saísse para lugares que não fossem locais tidos como de mais tolerância, como a Sá Albuquerque, estaria com mais medo. Quando a gente sai de espaços construídos como mais tolerantes, a gente continua com muito risco”.
Do começo às perspectivas
Inspirado por um evento realizado antes do período da pandemia em Maceió, o Café com Bolacha – do Ateliê Ambrosina – o Fala, Bolacheira! começa também com uma história de vivências de suas idealizadoras, a pesquisadora, jornalista e roteirista, Cintia Ribeiro, e a museóloga, escritora, e pesquisadora Carmem Lucia Dantas. É quando academia e militância se encontram. “Vem muito em função do doutorado em linguística, em ser mulher lésbica e militante. Tentei juntar a militância pela questão lésbica e a militância acadêmica, porque estudo Gênero e Raça na Universidade”, relata Cintia.
Já o título também tem história. “Estávamos conversando com um amiga que trabalha com mulheres lésbicas, a Fernanda, do Documentadas, e Carmem citou como a palavra ‘bolacheira’ tem uma perspectiva regional. Conversamos também sobre como diferentes nomes afetam nossa existência. Teve época que ninguém falava ‘sapatão’. São nomes tradicionalmente usados para ofender e oprimir”, contou. “Nós utilizamos de outra forma, meio que nos apropriando dessa palavra e determinando que quem diz o sentido somos nós”.
As conversas foram se estendendo e se encaminhando para um plano: construir um evento que unisse academia, militância, e a diversidade de formatos que cultura. “A gente queria quebrar estigma de que, se você está militando, não está fazendo pesquisa acadêmica… ou quando está fazendo pesquisa não está militando, e queríamos uma militância focada nessa demanda. Queríamos contribuir para o letramento das pessoas, estimulando que mulheres lésbicas, sáficas e bi levassem sua própria experiência para o campo acadêmico, também”.
Projeto produzido, inscrito e aprovado na Lei de Incentivo à Cultura, foi a vez de enriquecer a programação, incrementando ainda mais quebras de estigmas, como a própria questão intergeracional. “Sou uma mulher de 59 casada com uma mulher de 81. Conhecemos as meninas da festa das sáficas, que são muito mais jovens, e elas toparam estar com a gente nesse projeto como apoiadoras e assim reunimos diferentes gerações, unindo as perspectivas da memória que vêm das pessoas mais velhas junto à atualidade da proposta”.
A dinâmica intergeracional suscitou também ainda mais riqueza no campo cultural. “Fomos reunindo arte, música, colagem de lambe, exposição… e tentamos ir construindo da forma mais abrangente, ampliando e acolhendo ainda mais o significado de ‘bolacheira’, a partir da ideia das mulheres que se definem como sáficas. Hoje é muito mais comum falar também sobre as sáficas, que são mulheres que amam mulheres. É uma observação muito delicada de como a linguagem vai atravessando”.

O resultado da primeira edição? “Primeiro foi um susto”, conta Cíntia. “Não imaginávamos que teria receptividade tão rápida e forte. As inscrições se esgotaram em cinco dias e eram 150 ingressos. O primeiro impacto foi esse, o que também demonstrou que estava faltando algo nesse lugar, de discutir lesbiandades de uma forma abrangente e leve. Levamos inclusão onde podíamos levar, como mulheres trans lésbicas, lésbica surda”, exemplifica.
A garantia de um lugar seguro e incluso para toda essa dicussão foi possível, de acordo com Cíntia, a partir da própria compreensão de como as desigualdades atravessam o debate o tempo inteiro. “Refletimos muito sobre quem pode se assumir no ambiente político como esse em que vivemos. Nós sabíamos, Carmem e eu, que nós podíamos porque ocupamos um privilégio, o que também não significa que sejamos imunes”.
Esse reconhecimento leva, ainda segundo Cíntia Ribeiro, a vislumbrar possíveis futuras edições de forma ainda mais inclusiva. “A gente reconhece o Jaraguá como espaço privilegiado. Para as próximas edições queremos trazer o evento para a periferia. Se eu pudesse traçar já um plano, sei da importância de irmos para Jacintinho, Vergel, para que outras mulheres tenham também acesso a essas discussões”, comenta.
SERVIÇO:
Fala, Bolacheira!
Data: 29 de Agosto de 2026, a partir das 18h
Local: Theatro Homerinho
Inscrições gratuitas e abertas a partir do dia 20 no link disponibilizado no perfil do evento: @bolacheiralab




