Jogar a voz e escorraçar

Bolsonaro desistiu de vir a Maceió nesta semana, mas há muito dele e dos seus aliados presente em tudo o que nos sufoca. As vozes coletivas não podem parar, até escorraçarmos quem tanto tem nos impedido de respirar.
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Foto: Evaristo/Sá/AFP

A notícia inicial era de que Jair Bolsonaro viria a Maceió. Ainda não havia uma data, mas lembro que a informação foi suficiente para modular o restante da tarde. Terminei algumas transcrições, coloquei o tênis para correr e o fone de ouvido. Veio a voz da diva franco-chilena, Ana Tijoux, cantando em espanhol: “respirar para sacar a voz, decolar tão longe quanto uma águia veloz”. Coube muito, e não tinha nada a ver com a corrida.

Mais de quatrocentos mil pessoas morrendo no Brasil. A velocidade impressionante que há mais de um ano nos alcançou, com susto e consternação, hoje evidenciando ser resultante de ações e intenções. E, um ano depois, o que é um ato criminoso avassalador, ainda vem imbuído de uma gama de narrativas fantasiosas de que se trata de uma tragédia. Não é. Saquem as vozes que dizem: não é tragédia.
Porque a recusa das vacinas é um ato criminoso.
A negligência decidida, esta ausência de mobilização de todos os recursos possíveis voltados para o enfrentamento da pandemia, é um ato criminoso.
O desvio de recursos para testagem, o que auxiliaria a prevenção, é um ato criminoso.
O uso de discursos, o fomento à aglomeração, o incentivo financeiro e publicitário a remédios arriscados, o grasnar de mentiras difundidas para confundir a população e colocá-la em ainda mais riscos, são crimes e mais crimes.

É também um crime a anuência às grandes corporações que lucram com as mortes; a retirada de mais direitos trabalhistas que posiciona mais de 14 milhões de brasileiros no desemprego, no meio desta pandemia. Vai se ramificando um contingente gigantemente maior em condições informais, precárias e desalentadas. Por mais que tentemos nos utilizar de categorias específicas para definir cada uma das situações, existe uma que reúne sentimento, sem tirar as particularidades: o desespero. O desespero que dispersa nossas rotas para o foco em sobreviver, enquanto o retorno da pobreza extrema impede a possibilidade de existência dessa gente que é “para brilhar e não morrer de fome”, como diz Caetano.

Não tem como brilhar com a cabeça focada em sobreviver. O endividamento vai sendo a superfície do iceberg do sufoco. Não tem como comprar comida, nem remédio. Não tem como ficar em casa, e não tem como encontrar um emprego. “Não tem como” virou nosso início de quase todas as frases. E dizer isso em voz alta é quase como não ter fôlego para o dia seguinte. Mas a gente precisa respirar. Se apegar a privilégios como respirar, comer, ter onde dormir, conseguir correr.

E sacar a voz. Continuar denunciando que a pandemia é tragédia mundial, sim, mas nesse nível, nessa lentidão em solucioná-la é uma consequência criminosa do sistema de produção que envolve o mundo inteiro em lógicas inaceitáveis, como colocar a tecnologia da humanidade e os insumos disponíveis no planeta à serviço de lucros e patentes, e não de gente. Os culpados não são abstratos e são ainda mais facilmente reconhecíveis quando focamos a lente: América Latina, Brasil, Nordeste, Alagoas. Jogamos mais ainda as vozes contra os específicos ataques diretos ao que nos é primário, antes mesmo que a pandemia tivesse chegado.

O desejo de que a população morra, e todos os esforços voltados a esta ação, é um ato que vai além do que se poderia chamar de “crime”, aliás. Cabe o nome de política? Certamente, também, mas um tipo específico de política. Muita gente diz e é preciso repetir: uma política genocida, que ainda não foi contida, que ainda segue transcorrendo tão perversa quanto impune. Com manutenção de Teto de Gastos, congelando recursos da educação e da saúde. Vem a sabotagem progressiva do auxílio emergencial, que colocou diretamente mais 9,1 milhões de pessoas na pobreza extrema. O ato criminoso de gerar pobreza vitimou ainda mais mulheres negras: 33% delas atingidas, com cenário estimado de 2021 de 38%. Na sequência vem os homens negros (32% para 36%), mulheres e homens brancos ( ambos 15% para 19%) . Os números partem de estudo da USP com dados do PNAD/ IBGE. Aliás, estou falando do mesmo IBGE, que chegou a ser alvo destas ações político-criminosas, em uma tentativa do Governo Bolsonaro de, com recorte de recursos, tentar suspender a realização do censo e impedir a visualização da situação que seu governo vem deixado o povo brasileiro. Tanta coisa tirada do povo foi investida em algum lugar. Não é tragédia. É crime.

Tentar impedir o censo é puxar mais uma pá no buraco perigoso da censura que também vem sendo cavada. E aqui começamos com a – previamente desmantelada, desviada e apropriada – FUNAI que, inacreditavelmente, mobilizou a Polícia Federal para intimar líderes como Sônia Guajajara e, depois, Almir Suruí . O motivo: a luta dos povos indígenas que hoje perpassam, necessariamente, por denunciar as ações e inações do governo Bolsonaro. Finalmente, os ataques à imprensa também tiveram um crescimento de 105,77% em 2020 em relação a 2019, sendo Jair Bolsonaro responsável por responsável por 40,89% – segundo dados da FENAJ.

Branca a arma, branco o pelo. Sua branca cara de crápula

-Ana Tijoux

Só que aí Bolsonaro viria aqui. No fim de uma noite, soubemos que seria em uma quinta-feira, 6 de maio, para inaugurar obras impulsionadas, mais uma vez, por governos anteriores. Vereadores bolsonaristas aproveitaram a ocasião para jogar uma votação em caráter de urgência para que o presidente ganhasse título de cidadão honorário, ironicamente no mesmo dia em que começou a responder uma Comissão Parlamentar de Inquérito por suas ações no enfrentamento à pandemia. A notícia foi recebida como um senhor desaforo nesta cidade que tanto vem sofrido pela política genocida e atos criminosos de Bolsonaro e os seus.

O autor da proposta, vereador Leonardo Dias, até tentou, em sua indicação, justificar a honraria com uma lista de “feitos” do presidente. O textão não convenceu. Não com fatos que saltam os olhos. Das poucas ações que de fato foram executadas ou repassadas via Governo Federal, todas foram produzidas a partir de pressão social anterior, muitas inclusive a contragosto da cara de crápula.

A pressão popular de movimentos locais impulsionaram o recuo dos parlamentares, pelo menos por agora. E nesta segunda-feira, 03, soubemos que Bolsonaro não viria mais a Maceió. Sem título, sem visita? Que seja.

Bolsonaro não precisa estar de corpo presente em um estado que sofre de forma presente e aguda os ataques do conjunto de ações que ele e seu governo impunham contra a população, obviamente que não sozinho. Houve um crescimento de 30,4% a mais de alagoanas e alagoanos em extrema pobreza – são 15% da população vivendo com impossíveis R$ 151 por mês, e um total de 47,2% na pobreza. Tudo isso antes da pandemia, em 2019. Assim como no movimento nacional, a população branca recebe 37,4% a mais do que a preta e a parda (segundo parâmetros de raça indicados pelo Instituto) – que seria entre de R$ 1.828 e R$ 1.330. Em Maceió, a diferença é ainda maior e chega a 56,8%.

Indígenas em Alagoas seguem sofrendo a falta de demarcação e de condições para estruturar suas terras em meio à pandemia. Sequer as cestas básicas vêm a contento e muitos ainda estão sem vacina. Toda a legitimação a ruralistas vem desencadeando conflitos no campo cada vez mais violentos. Por onde a gente passa é violência, desemprego, fome e desespero. E, sem esquecer, vem o recheio de alguma tecnocracia para disfarçar a falta de controle sobre o caos. Bolsonaro não está presente, mas o bolsonarismo está e precisamos estar atentas e atentos. E quando o bolsonarismo não está presente, a direita vai mostrando que é sempre extrema – fazendo ou não propaganda escancarada de si – selecionando quem estuda, quem come, quem vive, quem respira, quem brinca e quem sente prazer… e quem “não tem como” nada disso.

E é uma maioria a que está do lado de fora da casa de privilégios! É uma maioria tão grande que, bem se ligasse na potência, na absurda potência, não deixaria pedra sobre pedra. E vai completando Ana Tijoux: “E o que dói, que doa se tem que doer. A chama sem calma, que arda, que siga ardendo, que siga fosforescendo se tem que fosforescer “

Aqui vou sacar a voz sem contar novidade nenhuma. É mais como um dever ético e moral, e até terapêutico, de ser mais uma. Uma esperança de que essa voz se reúna às numerosas, de todas estas maiorias. Enquanto aprendemos como construir nossas melhorias, não tem mais como disfarçar que transformar isso tudo perpassa pela contenção do que nos destrói, e agir com tudo sobre o fato de que não tem como deixarmos eles continuarem com esse projeto de morte.

Sacar a voz,
escorraçar,
e, assim, respirarmos.

 

*Referência: Ana Tijoux – Sacar La voz
Composição: Ana Tijoux / Jorge Drexler.

E também:

Caetano Veloso – Gente
Composição: Caetano Veloso

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