PM faz ofensiva contra porteiro por participar de panelaço em prédio na Ponta Verde

Militares foram chamados por bolsonarista inconformado que passava pelo local; moradores no prédio ficaram revoltados com ação policial
Porteiro Edmílson foi conduzido à Central de Flagrantes após participar de panelaço. | FOTO: redes sociais.

O porteiro de um prédio foi submetido a uma ofensiva da Polícia Militar e conduzido à Central de Flagrantes, na noite dessa sexta-feira (16), depois de participar de um panelaço contra o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL), no bairro da Ponta Verde, em Maceió. De acordo com os relatos das testemunhas, 0s militares foram acionados por um apoiador de Bolsonaro que passava pelo local e ficou incomodado com o ato dos moradores dentro de seus próprios prédios. Os condôminos ficaram revoltados com a ação policial, divulgando uma série de filmagens e denúncias nas redes sociais durante toda a madrugada deste sábado, 17.  

Felipe Verlaine, morador que presenciou toda a situação, conta que faziam o panelaço nos apartamentos e ele decidiu descer até a parte de baixo do prédio e balançar uma bandeira em referência ao presidente Luiz Inácio, que concorre ao segundo turno da presidência pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Nesse momento, o porteiro Edmilson também se juntou à mobilização, batendo a panela, como, aliás, faziam diversas outras pessoas em prédios vizinhos também.

“Foi nesse contexto que um homem que estava dentro de um carro entrou na rua já gritando com a janela aberta, xingando, fazendo gestos obscenos. Ele parou em frente ao prédio, já nos chamando para briga. Nós não demos nenhum valor para ele e continuamos batendo a panela e balançando a bandeira, de forma ainda mais intensa. Ele tentou subir no prédio e não conseguiu. Foi aí que resolveu chamar a polícia”, conta Felipe.

Segundo ele, primeiro uma viatura da OPLIT passou pelo local. Na sequência, outro carro da Polícia Militar – que, conforme mostram as inúmeras imagens apresentadas, pertence ao 13º BPM – se aproximou e decidiu parar no prédio.

“Eles já chegaram de dentro do carro chamando o seu Edmilson, apontando para ele e dizendo ‘desce aqui, por favor. Eu só falo com você aqui embaixo’. O seu Edmilson disse que iria buscar o controle. Nesse momento, um policial chegou a tentar pular o muro, mas como viu que havia uma placa de vidro e poderia danificar, desistiu. Quando seu Edmilson abriu, ele já chegou encostando nele e dizendo ‘recebemos uma queixa e vimos que você fez perturbação de ordem’. Nesse momento, só estávamos eu e uma moradora, e confrontamos a informação dizendo que ele não estava perturbando, que todo mundo estava batendo panela”, conta o Felipe. Ainda assim, o policial seguiu contestando: “Ele disse ‘mas quem nós vimos foi ele’ .

O morador conta então que os policiais passaram a pedir os documentos do funcionário do prédio, de forma truculenta. Um militar segurou a mão do porteiro, que respondeu: ‘como vou pegar meu documento se o senhor está segurando minha mão?’.

“O policial então virou para o outro e disse ‘comandante, deixa pegar a algema’. Foi nesse momento que saí correndo para chamar os outros moradores que estavam em seus apartamentos também. Quando mais moradores desceram, o policial foi dizendo que não era algo pessoal com ele, mas que tinha que levá-lo à delegacia para ‘resolver tudo’.”  Nas filmagens encaminhadas por diversos moradores, policiais cercam o porteiro dentro da guarita, em gestos impositivos contra o trabalhador, enquanto ele tenta buscar os documentos. Enquanto isso, do lado de fora, diversos moradores tentam dissuadir os policiais, e registrar tudo o que acontecia.

Ainda segundo as filmagens, diversos moradores questionam qual crime o funcionário estava cometendo ao bater panela, no que um dos policiais diz: “vamos lá pessoal, não é só porque muitos estão fazendo e nós só pegamos um que esse ‘um’ está imune”.

Já o bolsonarista que chamou a polícia ficou o tempo inteiro na rua. “Ele estava na rua lá parado, aparecia de forma truculenta e se achando no direito de colocar o dedo no rosto de todo mundo. Nós dissemos então aos policiais que, se é para chamar quem estava envolvido, que chamasse também o homem que acionou a PM. Então ele também foi para a delegacia. Chegou lá com uns documentos dizendo que a filha sofre de um problema, mas nós vimos que ele estava desde a esquina entrando com a janela aberta xigando todo mundo”.

Apesar das diversas testemunhas corroborarem com seu Edmilson, entre moradores do prédio e vizinhos, o porteiro foi conduzido pelos militares à Central de Flagrantes, onde foi lavrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência contra o trabalhador. Felipe conseguiu acionar um advogado, Welton Roberto, que atuou na defesa do porteiro. “Lá mesmo na delegacia, também fiz um Boletim de Ocorrência direcionado a esse homem que nos atacou e chamou a Polícia”, conta Felipe. “O seu Edmilson voltou com a gente, ainda meio zonzo com toda essa situação. Ainda veio também uma advogada do trabalho para ajudá-lo e tranquilizá-lo, mas tanto os moradores como o síndico já deixaram bastante explícito que o apoiam e que ele jamais seria demitido por conta disso tudo”.

“Isso é só um reflexo do que é Maceió, uma capital retrógrada provinciana, que atrai pessoas de classe média que se acham, mas nem são, classe média alta. São trabalhadores como a gente e não percebem isso. Essa violência toda é para tentar coibir pessoas que se manifestam politicamente dentro do Estado Democraático de Direito”, conta.

CONFIRA O VÍDEO COMPLETO

“Estávamos na manifestação, eu consegui uma bandeira do Presidente Lula e fiquei balançando ela na frente do prédio. Eis que um cidadão bolsonarista estava vindo de carro, abaixou o vidro e começou a fazer gestos obcenos, com dedo em riste, xingando todo mundo e ameaçando quem estivesse falando coisas a favor do presidente Lula”, conta Felipe e continua:

“Diante disso, eu comecei a balançar a bandeira com mais intensidade e o porteiro a bater a panela com mais intensidade para abafar aquela baixaria toda. Então, o bolsonarista desceu do carro, veio em nossa direção chamando para briga e dizendo que queria resolver aquilo na porrada; ele tentou inclusive escalar a parede do prédio e nós ignoramos. Foi aí que ele chamou a polícia.”

O morador afirma ainda que a Polícia Militar chegou muito rapidamente ao local para averiguar a situação, após a denúncia.

“A polícia chegou muito rapidamente, entrou e já queria algemar o porteiro. Foi aí que eu corri para o meu apartamento e interfonei para todo mundo que estava participando junto para descer e termos vários registros. Eu abri um Boletim de Ocorrência (BO) contra o cidadão que nos ameaçou”, finaliza.

Segundo Felipe, o TCO foi lavrado como perturbação de sossego e uma panela foi apreendida. Em depoimento nas redes sociais, os advogados que se apresentaram ao local em defesa do porteiro comentaram o caso.

CONFIRA O DEPOIMENTO DO ADVOGADO

O advogado Matheus Gonzaga questionou esse enquadramento e afirmou que considera a abordagem uma violação ao direito de manifestação.  “Para mim, também não se sustenta”, disse, ao comentar a imputação de perturbação do sossego. “É um absurdo o que aconteceu hoje aqui em Maceió. É uma violação, um cerceamento da liberdade de expressão, do direito à livre manifestação do senhor Edmilson”, afirmou.

Matheus Gonzaga questiona a condição e considera a abordagem uma violação ao direito de manifestação. “Para mim, também não se sustenta”, disse, ao comentar a imputação de perturbação do sossego. “É um absurdo o que aconteceu hoje aqui em Maceió. É uma violação, um cerceamento da liberdade de expressão, do direito à livre manifestação do senhor Edmilson”, afirmou.

O QUE DIZEM A POLÍCIA MILITAR (PM) E A SSP/AL

Segue nota na íntegra.

A Secretaria de Estado da Segurança Pública de Alagoas (SSP/AL) e a Polícia Militar de Alagoas (PMAL) informam que, na noite desta sexta-feira (16), uma guarnição foi acionada para atender uma ocorrência de perturbação do sossego no bairro da Ponta Verde, em Maceió.

O Copom foi acionado para uma ocorrência de perturbação do sossego. No local, um homem foi conduzido à Central de Flagrantes por perturbação do sossego alheio, onde foram adotados os procedimentos cabíveis.

Na unidade policial, foi lavrado um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), que seguirá para apuração pelas autoridades competentes. Após os procedimentos, o conduzido foi liberado.

A Polícia Militar informa, ainda, que a Corregedoria-Geral da Corporação irá apurar a conduta da equipe policial envolvida na ocorrência.

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