A ilusão de que ser homem bastaria: o mundo masculino e a violência contra as mulheres

Artigo de Pedro Montenegro*

Por Pedro Montenegro*

 

Imagem: Cena do documentário O Silêncio dos Homens.

 

“Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria. Que o mundo masculino tudo me daria do que eu quisesse ter …” Gilberto Gil

 

Para Jaci Rocha (in memória), Maninha Xucuru (in memória), Elvira Barreto, Aline Rocha e tantas outras mulheres que me ensinaram a superar a ilusão de que ser homem bastaria.

 

No Brasil, em 2024, todos os dias, ao menos quatro mulheres morreram apenas por serem mulheres; uma mulher foi estuprada a cada seis minutos; e 10 mulheres foram vítimas de perseguição por hora.

Nesse contexto, recentemente vivenciamos do norte ao sul do país mais um Agosto Lilás, movimento de conscientização para o enfrentamento à violência contra a mulher e de reforço à rede de proteção e aos canais de denúncia da violência de gênero.

Espraiaram-se, pelo Brasil, inúmeros debates, seminários, palestras, campanhas educativas e outras iniciativas acerca da Lei Maria da Penha e outros instrumentos legais de proteção, bem como o encorajamento às mulheres em situação de violência a procurarem ajuda e denunciarem.

Gostaria aqui, ainda em tempo, de trazer breves considerações sobre o lugar dos homens no enfrentamento da violência contra as mulheres.

Desde que a machosfera ultrapassou os limites da internet, com seu conteúdo extremo de ódio as mulheres, sendo recompensada pelos algoritmos das redes sociais com um alcance de audiência extraordinário, os números e a crueldade das múltiplas formas violências contra as mulheres não param de crescer.

Superar a cultura patriarcal capitalista e racista que estrutura a sociedade brasileira, um dos vetores determinantes da epidemia da violência misógina, exige a desconstrução das masculinidades tóxicas com a criação de espaços que estimulem reflexões e contribuam com a formação da consciência crítica dos homens.

Nessa direção, é inadiável que nós – homens – percebamos os efeitos nocivos da cultura patriarcal na qual fomos socializados, transformando-nos em uma espécie de lêmures, vivendo em um estado de dormência emocional.

A percepção da natureza infesta do patriarcado passa primeiramente pelo letramento, essa capacidade/habilidade de usar a leitura para entender as relações sociais no mundo em que vivemos.

Nesse processo é preciso nominar, dizer, pronunciar sem medo a palavra PATRIARCADO, “essa doença mais letal entre as doenças sociais que afeta o corpo e o espírito masculino”, como bem frisou bell hooks, escritora feminista estadunidense.

[ A autora optou pelo pseudônimo bell hooks em homenagem à sua bisavó Bell Blair Hooks, decidido usar-lo sempre com letras minúsculas para se destacar, além de eliminar o caráter pessoal impresso em um substantivo próprio.]

A propósito de hooks, inspiração para essas minhas reflexões, especialmente o seu livro “A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor”, que acertou como uma flecha certeira o meu coração, vejam o que ela escreveu acerca da característica indizível, impronunciável do termo patriarcado por nós homens:

“… A maioria dos homens não usa a palavra ‘patriarcado’ no cotidiano. A maioria não dos homens nunca pensa sobre o patriarcado – o que significa, como surge, e como é mantido. Muitos homens em nosso país (no Brasil também) não seriam capazes de soletrar ou pronunciar essa palavra corretamente: ’patriarcado’ não faz parte do seu pensamento ou do seu discurso habitual. Homens que já ouviram e conhecem essa palavra costumam a associá-la à libertação das mulheres, ao feminismo – e, portanto, a consideram irrelevante a suas próprias experiências.”

Para que possamos interexistir em nossa casa comum, a mãe terra, mulheres e homens livres, iguais e diferentes, partes de um todo denominado humanidade, nós homens, precisamos reconhecer que o pensamento e a prática feminista são os únicos e eficazes antídotos contra a letalidade do patriarcado capitalista.

Nesse sentido, nos cabe, enquanto homens, construir projetos de mudanças das masculinidades patriarcais capitalistas que superem em nós o medo de mudar, a vontade de dominar e nos ensinem a potência da arte de amar.

 


 

Pedro Montenegro é coordenador de Direitos Humanos do Tribunal de Justiça de Alagoas.

Apoie a Mídia Caeté: Você pode participar no crescimento do jornalismo independente. Seja um apoiador clicando aqui.

Recentes