“Tempo, eu quero é mais tempo pra ter tempo pra sonhar. Se, como dizem, ‘a vida é um sopro’ eu quero vento pra o barco da minha vida navegar”

Com versos que falam sobre o direito de viver a vida, e até de um certo presente chamado infinito, o músico e compositor alagoano Felipe Gomes compôs e reuniu pelo menos 15 cantores de todo o país – num samba cheio de leveza e significado – para defender a pauta mais importante que tramita atualmente no Congresso Nacional, no que diz respeito aos direitos trabalhistas: a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que preconiza o fim da escala 6×1.
Lançada, a canção rapidamente tomou repercussão. Perfis nacionais passaram a circular a mensagem didática, através do cotidiano de trabalhadores e trabalhadoras, do que afinal se trata esse pleito que, se aprovado, altera a jornada máxima de trabalho para 40 horas semanais, com cinco dias de trabalho e dois dias descanso na semana (ao invés de apenas um), a chamada escala 5X2.
“A gente dá duro a semana inteira e merece um pouquinho de paz para brincar, pra cuidar, pra dormir, esquecer do sufoco e lembrar que meu presente é infinito, presente que a vida me deu. Cada segundo conta e eu quero é mais”.
Alagoano nascido em Arapiraca, Felipe Gomes relata ter acompanhado as pautas do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que protagoniza a bandeira do fim da 6X1, e da PEC que foi o maior desdobramento dessa mobilização.
“Tentei trazer para a música essa questão do que é o tempo para a gente, de uma maneira não tão direta em relação à pauta política, mas de uma maneira mais leve e tocando naquilo que as pessoas sentem na pele, que é a dificuldade de se viver com bem-estar, com tranquilidade”, conta. “Então a composição já foi feita pensando especificamente para ser da campanha. Embora eu não desejasse que a música fosse muito literal, em alguns momentos ela fala de coisas que estão nos discursos políticos que rodam por aí”.
De acordo com o compositor, a ideia surgiu em dezembro de 2025. “Eu ainda estava morando em Portugal e acompanhando sempre a política brasileira, à distância. Eu pensei ‘essa campanha está tão bem articulada e com uma força tão grande, mas podia ter uma música para ajudar a crescer e mobilizar mais pessoas ainda. Porque a música tem essa força, né?”, comentou
Depois da decisão, a criação fluiu. “Eu não sou um compositor contumaz de canções (música e letra). Tenho poucas coisas. Faço mais coisas instrumentais. E quando faço coisas com letra, demora meses a sair. Essa música eu fiz quase de uma sentada só. A letra e a melodia estavam quase prontas em um dia. Passei só mais alguns dias trocando umas palavras e acordes”, comenta.
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Já as etapas seguintes demoraram um pouco mais. “Passei cerca de uns dois meses procurando parceiros produtores para me ajudar a encontrar artistas que estivessem dispostos a gravar. Convidei Zimbher, com quem já tinha feito uma parceria para teatro e depois conheci Netto Duarte, que fez a produção executiva. Os dois conhecem meio mundo de artistas fantásticos, inclusive os que participaram da gravação. Netto fez também uma ponte gigante com movimentos sociais e parlamentares para que fosse feita a divulgação da música”, relatou.
A ideia individual se transformou numa grande mobilização coletiva, que terminou culminando numa campanha de múltiplas vozes. “Foi um processo muito bonito, de muita colaboração e entrega das pessoas, mas foi um pouco demorado, porque é muita gente para articular… muitos convites para fazer e exigiu um tempo considerável. Da composição da música, passando pela gravação, até o lançamento, agora, foram quase seis meses. Então, assim, foi um processo de construção lento porque foram 14, 15 artistas que gravaram”, contou.
“Todos os artistas e equipe da produção se entregaram com muita voluntariedade, vontade mesmo de fazer e de ajudar a promover uma mudança tão importante para o país. Uma das coisas mais legais foi que pude conhecer e trabalhar com nomes que eu já admirava de longa data, como Cláudio Nucci, Suzana Salles, Claudinho de Oliveira”.
A Cultura na linha de frente da luta por direitos
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que altera a jornada máxima de trabalho para 40 horas, sendo cinco dias de trabalho e dois de descanso, foi aprovada em dois turnos na Câmara dos Deputados e agora segue para o Senado. Apesar das vitórias, vem sendo grande a pressão de diversos setores econômicos, utilizando discursos que inclusive chegam a sugerir que a proposta pode ser prejudicial a trabalhadores.

O extremo de contraponto foi produzido, entretanto, no próprio Congresso Nacional, a partir da proposta extrema de escala 7×0 – ou seja sete dias de trabalho e zero de descanso, e a prevalecimento da “negociação” direta entre patrão e empregado sobre acordos coletivos. Em Alagoas, a senadora Eudócia Caldas (PSDB), mãe de João Henrique Caldas, votou favorável a essa proposta.
Por outro lado, a mobilização iniciada pelo Movimento VAT e arregimentado pela deputada federal Erika Hilton, tem crescido com movimentos de trabalhadores, coletivos e entidades. Não é para menos. Se transformada em lei, a proposta já é considerada a maior conquista trabalhista desde a Constituição de 1988, em uma conjuntura completamente hostil e voltada ao desmantelamento dos direitos de trabalhadores e trabalhadoras.
Entre os setores que se reuniram solidariamente à causa, estão as entidades culturais e artistas, o que para Felipe não é exatamente uma novidade. “A classe artística brasileira e as pessoas que fazem cultura sempre tiveram, em grande parte, desde o século XX e chegando até agora, um olhar atento para as questões sociais brasileiras. A classe artística, isso é um fenômeno mundial, de certa forma, sempre teve essa preocupação. E eu vejo que nesse momento não é diferente. Ainda que de forma individual, vemos um grande apoio de artistas que têm uma preocupação com a pauta da qualidade de vida do trabalhador, principalmente dos trabalhadores com menor renda, das mulheres que têm dupla, tripla jornada, e que têm esse sábado comprometido com o trabalho. Nesse momento eu vejo que não está sendo diferente. A gente pode perceber muitas manifestações nesse sentido”, contextualiza.

O músico ressalta a importância da classe cultural artística se posicionar, utilizando de seus instrumentos próprios para sensibilizar e mobilizar. “A arte tem essa capacidade de olhar e captar coisas que estão aí no ar, de pensar novos mundos, de ter uma percepção das transformações, mas de uma maneira mais sensível e íntima. Então eu acho que a junção -tanto do fazer artístico em si quanto o posicionamento político dessa classe artística e cultural – é muito importante, porque o artista dialoga com o povo, dialoga com as pessoas, dialoga direto na sensibilidade. E a música tem esse poder de encantar e de fazer emocionar e de fazer com que as pessoas se sintam e entendam não apenas uma letra, uma mensagem política, mas junto com essa mensagem política tem uma camada musical que abraça a gente, que nos dá alegria, nos dá esperança, e que fala com o entendimento de todo mundo. Principalmente em se tratando de Música Popular Brasileira”
Quem é Felipe Gomes

Há 26 anos fora de Alagoas, Felipe Gomes viveu entre Arapiraca e Maceió até os 16, e conta que sua trajetória musical iniciou ainda na infância. “Da primeira infância, lembro da descoberta da coleção grande de vinis que meus pais tinham e do toca-discos que tocava de tudo que saía da música brasileira. Depois, na adolescência, comecei a tocar na banda fanfarra da minha escola. E daí, montei com meus amigos uma banda de pagode, que era uma febre no final dos anos 90, e rodava Maceió tocando onde aceitavam esse bando de adolescentes que era o meu grupo… Geralmente de graça…”, rememora.
Ao partir para São Paulo com desejo de estudar música, Felipe começou então a trabalhar profissionalmente como músico aos 17. “Toquei durante muitos anos em bares, em casas de shows, teatro. Mais recentemente, de 10 anos para cá, comecei a fazer algumas produções musicais também. Trilhas para teatro, para audiovisual, alguns documentários e minisséries documentais também. Agora mesmo, estou trabalhando em uma trilha e edição de um podcast”, explica.
Há cerca de quatro anos, entretanto, o músico alagoano partiu para Portugal, ingressando em um Mestrado em Artes e Tecnologias do Som. Retornou para São Paulo no início desse ano.





