
Ainda que tenha apresentado uma redução de 5,7% no índice de mortes violentas em 2024, Alagoas permanece em alerta como o quinto estado com a maior incidência de assassinatos no Nordeste. Os dados revelados pelo Anuário Brasileiro da Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro da Segurança Pública em parceria com o IPEA, registram um total de 1141 mortes letais intencionais, ou seja, 35,4 a cada 100 mil habitantes. O documento pode ser visualizado na íntegra no portal do Fórum, ou clicando aqui.
Em publicação oficial, o Governo do Estado centralizou a divulgação em comemorar a redução num marco histórico de 12 anos, e acentuou as últimas ações intensamente propagandeadas, praticamente centradas no investimento em equipamentos repressivos: “a maior entrega de equipamentos para as forças policiais alagoanas, que somam mais de R$ 50 milhões em investimentos. Entre maio de 2022 e junho de 2025, o Governo do Estado já investiu mais de R$ 700 milhões em modernização de equipamentos, construção de novas unidades de segurança pública, adoção de tecnologias avançadas, aprimoramento da gestão estratégica e capacitação dos profissionais”.
Entretanto, a redução de mortes violentas no país, cuja média apresentada é de 5,4%, é atribuída pelo Fórum por fatores como a implementação de políticas públicas de segurança orientadas por evidências, com programas de gestão por resultados e iniciativas multissetoriais e prevenção à violência, política de controle de armas, além da redução do número de adolescentes e jovens na população, que é o grupo historicamente mais exposto à violência letal.
As instituições que realizaram a pesquisa acrescentam, ainda, como as dinâmicas entre organizações criminosas terminaram por interferir nos números gerais. “Embora as políticas públicas de segurança tenham papel relevante na redução dos homicídios, outro fator que tem influenciado variações nas taxas de violência letal diz respeito às dinâmicas entre organizações criminosas. Conflitos e tréguas entre facções podem desencadear aumentos ou quedas abruptas nos índices de violência. Além disso, a consolidação de monopólios territoriais por grupos criminosos, como o PCC em São Paulo ou o Comando Vermelho em diversos estados da região Norte, tem contribuído para a redução dos confrontos armados no cotidiano, impactando diretamente os níveis de letalidade.”
O anuário retrata, ainda, que , as regiões sul e sudeste se consolidam como aquelas que concentram as menores taxas de mortes violentas intencionais do país, ao passo que as regiões Nordeste (33,8 por 100 mil) e Norte (27,7 por 100 mil) permanecem como as mais violentas.
Ainda de acordo com o relatório, outro dado que chama atenção do Fórum é o aumento no índice de mortes violentas em decorrência de operações policiais. Alagoas, neste sentido, é um dos dez estados da federação que aumentou o número de letalidade policial.
Desaparecimentos
Alagoas também teve aumento de 22,9% no número de desaparecidos entre 2023 e 2024, com um total de 739 pessoas. Segundo o anuário, num âmbito nacional, é preciso atentar para como os desaparecimentos podem estar associados, ainda, a prática de desaparecimento forçado.
“Dados do Mapa dos Desaparecidos no Brasil, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostram que o perfil da pessoa desaparecida é marcado basicamente por homens (62,8%), adolescentes e jovens (53,5%), negros (54,3%), que desaparecem entre
sexta e domingo – o mesmo perfil das vítimas de homicídio.” Nesse sentido, os pesquisadores alertam como o expressivo registro de desaparecimentos, especialmente nas regiões onde há altas taxas de homicídio, revelam a necessidade de reconhecer como esta dinâmica vem ocultando o que denominam uma face perversa da criminalidade: a execução seguida da ocultação de cadáver.
“Aprovar o PL 6.240/2013, que tramita há mais de uma década no Congresso Nacional e tipifica o crime de desaparecimento forçado, incluindo-o como crime hediondo, é medida indispensável para romper com a naturalização do desaparecimento e assegurar o direito à memória, à verdade e à justiça.”
Em Alagoas, dois casos de desaparecimento forçado ganharam maior notoriedade no estado: Davi e Jonas. Jonas Seixas foi visto pela última vez em outubro de 2020, após ser levado por uma viatura com policiais militares, sem mandado, e nunca mais ter sido encontrado. Apesar disso, os cinco policiais julgados pelo sequestro e morte do pedreiro foram absolvidos de todos os crimes. Já Davi da Silva, de 17 anos, desapareceu em 2014, após ter sido levado por uma viatura da Radiopatrulha no Benedito Bentes. Seu corpo, assim como o de Jonas, nunca foi encontrado. Nesse momento, os policiais militares indiciados pelo envolvimento devem ir à júri popular.
Outros registros
Com 436 páginas, o Anuário traz registros dos mais diversos e também se preocupa em indicar debates sobre as legislações, conjunturas sociais, construção de linhas do tempo, entre outras informações pertinentes para auxiliar na incidência de políticas públicas assertivas para os estados. O relatório também aponta uma série de outros registros, como a condição de policiais militares, o racismo e os registros de denúncias por injúria racial.
Outros registros apontados também perpassam pelos casos de violência contra as mulheres. Nesse sentido, de acordo com o Anuário, houve um aumento de 18 para 22 feminicídios entre 2023 e 2024, sendo cinco feminicídios seguidos de suicídio do autor. Entre estas vítimas, uma tinha medida protetiva de urgência ativa no momento do crime. Já entre as tentativas de feminicídio, o número também subiu de 65 para 75 casos.
Entre os casos de violência doméstica, os números também foram maiores de registros: de 2.419 para 2.687, entre 2023 e 2024. As ameaças registradas também subiram de 8.138 para 8.661.






