Quarentena Marginal reproduz cultura da periferia 

WebRádio é uma iniciativa idealizada pelo Coletivo Cia Hip Hop e traz músicas e programas informativos 24 horas por dia
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Foto: Jonathan Lins

Não está sendo fácil. Viver em isolamento, ainda que momentâneo, vai de encontro à natureza humana. Mano Brown, um dos maiores representantes da cultura das periferias brasileiras, em entrevista para a revista Rolling Stone, afirmou que “inteligência é estar no convívio, interagindo, e não se isolar”.

Exatamente por essa razão, o Coletivo Cia Hip Hop tomou a iniciativa de montar uma WebRádio 24 horas, que recebeu o nome de Quarentena Marginal – uma alusão bem sugestiva ao período de isolamento social causado pelo surto de Coronavírus. Com músicas e programas informativos, o projeto – que conta com oito integrantes – busca encurtar as distâncias e disseminar conteúdo pelas periferias de Maceió.

A Cia Hip Hop foi fundada no ano de 2002 e atua apoiando atividades culturais e educativas para as pessoas que vivem nas comunidades periféricas. Ela surgiu – como afirma através das redes sociais – “da necessidade de preencher o vazio deixado pelo Estado nas periferias da parte alta de Maceió, em um contato direto com a comunidade, ocupando as ruas com arte, cultura e informação”.

Para Geysson Santos, militante do coletivo há nove anos e um dos organizadores da rádio online, atividades como a Quarentena Marginal são fundamentais para levar conhecimento para as pessoas. “Por mais que o número de adesão ao rádio esteja caindo, há gente que só tem acesso à informação a partir dele. Por isso, é muito valoroso para nós”, afirma. 

Geysson conta que a ideia saiu do papel muito pela necessidade de adaptação à dinâmica de isolamento e que agora eles podem “apresentar um pouco das suas reflexões, de forma leve, informativa e responsável”.  

Geysson Santos é um dos organizadores da Quarentena Marginal

“A Quarentena é importante sobretudo pelo seu conceito, que leva cultura e informação a partir da nossa vivência e da nossa perspectiva. A ideia central é que a programação da rádio não seja puro entretenimento, a nossa política passa pelas escolhas, que vão desde as músicas até o conteúdo dos programas que já iniciamos”, conclui. 

Além de informar e entreter, a Quarentena Marginal promove o pensamento crítico dos ouvintes, abordando e comentando temas atuais e que impactam diretamente a vida da periferia. “Essa semana, tivemos o pronunciamento criminoso do Jair Bolsonaro. Logo após, vimos que precisávamos discutir o que foi dito e ver o que isso representa para a gente, que está na margem. Nós antecipamos a estreia do nosso podcast – o Ideia de Mil Grau – justamente para levantarmos essa discussão política”, ressaltou Geysson.

Ele fala ainda sobre como propor esse tipo de discussão é relevante e necessário. “Procuramos apresentar discussões políticas e fazer os nossos apontamentos e as nossas reivindicações. Esse é o nosso direito, o nosso lugar de expor as nossas visões e as nossas aflições, que são geralmente silenciadas até em espaços ditos progressistas. Essa é nossa forma de ler e transformar o mundo!”.

Outro ponto que merece menção é que o motivo de a iniciativa levar esse nome. Geysson reitera que a proposta é preencher a programação com conteúdo marginal, valorizando a música, a cultura e a identidade tão características, o que serve de incentivo para as produções de artistas da periferia. 

“Nós tocamos o Rap, o Reggae, o Brega Funk. É o que está tocando nas margens. Ao propor isso, nós estamos instigando o pessoal que produz o seu som. Recebemos músicas de artistas que sintonizam na Quarentena e ficam aguardando, às vezes até o dia inteiro, para ouvir o material que enviaram. Isso é muito massa!”, comemora. 

Segundo Geysson, o fato se ser uma mídia colaborativa fortalece os laços de quem participa da Quarentena Marginal, dos ouvintes aos organizadores. A proposta e a atuação partem de uma perspectiva e de uma filosofia de colaboração, as quais têm início desde o Coletivo Cia Hip Hop.

“Justamente por ser colaborativa, a Quarentena é, acima de tudo, uma opção política. É a partir da colaboração que a gente se mantém vivo, principalmente para quem é preto, isso vem desde os quilombos. Então, partimos dessa filosofia, sempre ressaltando que somos uma rádio militante. Isso por si só já é positivo: é a gente fazendo com a gente e para a gente!”

Você, que quer contribuir com a Quarentena Marginal, pode enviar o seu trabalho para o e-mail: [email protected]. Para conferir toda a programação da rádio, é só acessar o link bit.ly/QuarentenaMarginal ou seguir o projeto nas mídias digitais.

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