Fim do Observatório contra Covid-19 reflete desmonte das universidades públicas

Pesquisa e extensão têm sofrido com descaso, cortes no orçamento e falta de verbas
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Após 55 boletins publicados ao longo de pouco mais de um ano, o Observatório Alagoano de Políticas Públicas Para o Enfrentamento da Covid-19 (OAPPEC) encerrou a análise semanal do cenário epidemiológico da Covid-19 em Alagoas. Durante o período de participação ativa na sociedade, com impacto direto na vida dos alagoanos, o projeto lutou contra a falta de recursos e de apoio para garantir estrutura e aporte financeiro para as atividades.

O professor dr. Gabriel Soares Badué, coordenador do Observatório, nos conta que o projeto se iniciou com a finalidade de colaborar com o planejamento de um modelo de distanciamento social controlado que pudesse ser adotado no Estado para, assim, tentar reduzir os impactos da pandemia.

“No entanto, considerando que não conseguimos avanços com a implementação da proposta àquela altura, elaboramos um planejamento contendo mais de uma dezena de possibilidades de estudos que poderiam ser desenvolvidos a partir da sinergia criada com a reunião de pesquisadores em torno daquele propósito inicial. Esse documento foi encaminhado à gestão da Ufal bem como à diferentes instâncias do poder público”, relatou Gabriel.

Entre as possibilidades descritas no documento, estavam Investigação acerca da política de testagem em Alagoas; Avaliação da política de ocupação, distribuição e ampliação de leitos no estado; Estimativa de subnotificação de casos de Covid-19 por meio da notificação de SRAG; Estudo Epidemiológico para mapear a evolução da Covid-19 em Alagoas; Análise das ações socioeconômicas do governo federal para o enfrentamento da Covid e seus impactos em AL; Os impactos da pandemia na economia local; Avaliação dos protocolos para flexibilização das medidas de isolamento e suas aplicações; O impacto da pandemia no orçamento público estadual e de municípios alagoanos; Informação, Comunicação e Transparência em tempos de pandemia; entre outros.

Prof. Dr. Gabriel Badué | arquivo pessoal

Os projetos universitários de extensão, por definição, compõem a ação da universidade junto à população compartilhando de forma prática os resultados do ensino e das pesquisas na comunidade.

“É muito gratificante. Nessas oportunidades, conseguimos estar mais próximos da sociedade que, em grande parte do tempo não consegue acessar o que é produzido na Universidade. Assim, os projetos de extensão proporcionam esse elo entre a Universidade e os demais setores da sociedade”, explica o coordenador do Observatório.

LEGADO

Em seu último boletim, o Observatório apontou uma tendência de controle da pandemia em Alagoas. Apesar das reduções, os números seguiam elevados pelo estado, com amplas desigualdades na distribuição de leitos de UTI e disparidades nos índices de contágio nos municípios.

“Ao final do projeto nossa avaliação é muito positiva. Considerando que entre os objetivos estabelecidos no início do projeto estavam o desenvolvimento de pesquisas, fornecimento de dados científicos e a realização de análises contextuais da pandemia, tanto para informar à população quanto para subsidiar a tomada de decisão de gestores públicos, entendemos que foram todos atingidos, o que contribuiu com a decisão do encerramento das atividades com a sensação de dever cumprido.”, explica Badué.

 

CORTES FEDERAIS

O Observatório, projeto vinculado ao Núcleo de Bioestatística em Saúde e Nutrição da Fanut (Faculdade de Nutrição da Universidade Federal de Alagoas), se enquadrava na modalidade de extensão, a mais afetada com o corte de verbas da Ufal, segundo comunicado emitido pela própria instituição em maio. Foram 30% no orçamento de custeio promovido por Lei Orçamentária Anual (LOA), que representam o montante de R$ 42 milhões. Além desse valor, o contigenciamento de outros 30% também pela LOA, mais bloqueio suplementar de 13,8% do orçamento de todas as instituições federais de ensino superior pelo Ministério da Educação.

Gabriel Badué entende que, a crise financeira instaurada na universidade tenha sido uma das responsáveis pela falta de verba por parte da universidade. “Muito provavelmente sim. Inclusive, nas interlocuções que tivemos junto à gestão da Ufal, esse foi um dos argumentos utilizados para a ausência de financiamento ao projeto”, explica.

A mestranda Keyla Nobre, integrante do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Alagoas(PPGCS/UFAL) e do Laboratório de Biologia Celular (LBC), discorre sobre os cortes:

“São tempos difíceis para a educação e pra ciência e os cortes sofridos escancaram o descaso com esses setores. Mesmo em um contexto de pandemia, onde ficou tão clara a importância da pesquisa científica, o Brasil vai na contramão e esquece que ciência não é gasto, e sim investimento”, desabafa Nobre, que também pontua de que forma os cortes afetam os cientistas.

“Isso afeta diretamente o trabalho dos pesquisadores, sem financiamento, as pesquisas não avançam. Por exemplo, não tem como realizar um doutorado, que leva cerca de 4 anos, sem recurso nenhum. E assim o futuro da pesquisa científica no Brasil é cada vez mais incerto”, explica a enfermeira e mestranda.

Dr. Marden Linares | acervo pessoal

O biólogo Marden Linares, doutor em ecologia e pesquisador residente pós-doutoral no Laboratório de Ecologia de Bentos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), faz coro com Keyla quanto ao ambiente de incertezas que é trabalhar com pesquisa no Brasil. Para ele, os cortes de verba sofridos pelas universidades são um projeto.

“[Enxergo] Como parte de um processo de destruição da pesquisa pública no Brasil. Embora eu não possa afirmar que objetivo seja isso, é fato que há uma política clara do Governo Federal e de seus cúmplices, em outras esferas, para desacreditar as universidades públicas e a produção científica brasileira. Além de repasses de recursos cada vez menores, existem ameaças constantes de cortes e uma promoção do anti-intelectualismo em nível institucional. Nós pesquisadores vivemos um clima de apreensão constante, sem sabe se teremos financiamento, condições de trabalho ou mesmo segurança em um futuro próximo. Já podemos ver os efeitos dessa política nos números de candidatos a pós-graduação, que são menores a cada edital. Isso sem contar os vários pesquisadores que estão fugindo do país. Os danos dessa política anti-ciência serão enormes a longo prazo”, disse Linares.

 

APAGÃO DO CNPq

Além do encerramento de projetos de extensão por falta de verbas, a comunidade científica têm lidado com outros percalços. Os sistemas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) saíram do ar no dia 24 de julho. O problema, chamado pela comunidade científica de “apagão do CNPq”, afetou os sistemas da instituição, dentre eles, a Plataforma Lattes, que abriga os currículos dos acadêmicos.

A Agência de fomento busca reestabelecer os sistemas em conjunto com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. No dia 28, Edvaldo Vilela, presidente do CNPq, anunciou que o problema foi originado de uma falha técnica no servidor. Vilela e o ministro Marcos Pontes informaram que não houve perda de informação. Edvaldo também afirmou que o problema não acarretará em atrasos no pagamento das bolsas.

No dia seguinte (29), o CNPq anunciou a previsão de retorno dos sistemas para o dia 2 de agosto. Mas, chegado o dia, em nova publicação, a agência adiou novamente o retorno das funcionalidades, desta vez, sem uma previsão.

Marden Linares não se surpreendeu com a situação. “Foi desapontador, mas não inesperado. Com os cortes que vem acontecendo no últimos anos, era questão de tempo que ou a Capes ou o CNPq pifassem de maneira espetacular. Desde o inicio do governo atual, não passa um mês sem surgir um burburinho de que não vai ter bolsa até o fim do ano. Tivemos sorte de, aparentemente, não ter havido perda de dados, mas será que teremos sorte assim na inevitável próxima pane?”, lamentou.

Outro relato de quem também vive a situação de instabilidade é o de Keyla Nobre, que classifica a pane como assustadora. “É uma situação extremamente preocupante, principalmente devido a manutenção dos dados de toda trajetória acadêmica dos pesquisadores. A Plataforma já passou por algumas instabilidades, mas um problema dessa magnitude é assustador e impensável”, explica a pesquisadora.

Se, no caso do Observatório Alagoano de Políticas Públicas para o Enfrentamento da Covid-19, com a vacinação em massa é possível vislumbrar o caminho da melhora, a defesa de universidades fortes e atuantes na sociedade é um labirinto em meio a um apagão.

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