Karapotós denunciam não conseguir participar de processo seletivo e reivindicam acesso a água para cerimônia religiosa

Conflito entre lideranças escala para violação de direitos; mesmo após ocupação no DSEI, impasse continua

Karapotós chegam ao DSEI para reivindicar suspensão e inclusão de grupo na participação em concurso.

Um grupo de indígenas Karapotós Terra Nova, de São Sebastião, denuncia ter sido impedido de participar do processo seletivo para Agente Indígena de Saneamento (AISAN), na comunidade. Em protesto pacífico realizado no prédio do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), em Maceió, a comunidade liderada pelo Cacique Gilvan relata enfrentar uma série de violações, que têm no plano de fundo a escalada de conflitos entre as lideranças.

Cacique Gilvan relatou que, ao chegarem no pólo base para realizar a inscrição, participantes tiveram o processo recusado por uma enfermeira responsável por recepcionar os candidatos. “Tem vídeo provando a intimidação”, relatou, mostrando um vídeo que demonstra o conflito ocorrido no local. “Ela disse que não poderia pegar o currículo de quem estivesse do lado do Cacique Gilvan e do Pajé José Leandro, e que não tinha validade. A validade só teria da cacica Nena”.

Cacique Gilvan, liderança Karapotó, reivindica também serviço de água no setor religioso.Após ser acionado pelos candidatos, Cacique Gilvan recorreu a órgãos públicos como Ministério Público e DSEI, que decidiram concluir a inscrição e realizar a prova dentro do Distrito, em Maceió.

“Tiraram de ser dentro da base por conta do bate-boca que teve”. Cacique Gilvan também informou ter sido pego de surpresa com essa mudança de plano, que segundo ele não estava prevista em edital.

“Disseram que eu juntasse o currículo dos meus participantes do lado e trouxesse no outro dia para o distrito. Nosso povo é humilde, não tem dinheiro para se deslocar de Karapotó, a 140 km, para fazer a prova no outro dia dentro do Distrito, ainda se inscrever correndo no dia, fazer a prova não sei até que horas, e ainda ter a entrevista. Isso tudo é cansativo”, explicou o Cacique. “Então não estou cobrando o que a gente não tenha por direito”.

Segundo a liderança, os antagonismos  entre os dois grupos intensificaram oito anos, e só tem aumentado o grau de confrontos, resultando na negativa de uma série de garantias para a parte do povo Karapotó.

Além da seleção para AISAN, foram apontadas ainda falhas de comunicação e acesso a consulta sobre funcionários para atuar dentro do território indígena. Em um documento endereçado ao MPF, o grupo reivindica acesso aos processos decisórios que dizem respeito à comunidade, além da finalização da instalação de uma caixa d’água necessária para a cerimônia religiosa do Ouricuri.

“A gente prova que fez a solicitação há dois anos para que levasse água ao setor religioso e não ver os nossos pequenos curumins tomar banho lá em tanque, dentro do Ouricuri, arriscando levar alguma doença”.

Ao receber a reportagem da Mídia Caeté, o coordenador do DSEI, Tanawy Kariri, relata que o Distrito tem, de fato, enfrentado dificuldades em efetivar o processo seletivo dos Karapotós, em razão da escalada de conflitos. Segundo ele, a decisão de modificar o local da seletiva para o DSEI ocorreu após consulta junto ao MPF, ao terem constatado as tensões ocorridas no pólo base. “Decidimos, em conjunto, fazer o processo aqui no DSEI, para que todos os lados tivessem abertura total de participação”.

O coordenador do DSEI também descartou a possibilidade de distribuir as duas vagas de Agente de Saúde Indígena para cada grupo que hoje se divide entre os Karapotós. “Acontece que tem pessoas que não estão nessa divisão, nem tomam lado do Cacique Gilvan, nem da Cacique Nena. Como elas iriam se inscrever? O processo precisa ser para todos os Karapotós e não por indicação das lideranças”, explica. “Além do mais, só tem um povo Karapotó. Se a gente divide, acabamos estimulando ainda mais essa divisão. Eu sou indígena, eu não aceito na minha comunidade. Não vou aceitar na dos outros. Estou enquanto gestor e a gente vai abrir o processo certo, a gente vai abrir para que todo mundo se inscreva. É um direito de todos”, relata.

Para o Cacique Gilvan, entretanto, o embate não se trata de incentivar uma divisão, mas de o Estado reconhecer que ela existe, de modo que oferte políticas públicas e direitos acessíveis a todos, e não restrito a uma das partes – ainda que não tenha sido esta a intenção.

“Karapotó Terra Nova, o mundo inteiro hoje tem o conhecimento que está dividido e tem duas lideranças. Eu sou Cacique porque tenho um povo Karapotó nativo, originário, que me escolheram como representante deles”, conta. “A cacica Nena, nem eu dou direito a ela, nem ela dá direito a mim. A gente tem nossos direitos individuais e vamos lutar para que seja com igualdade”.

A Mídia Caeté entrou em contato também com a Cacica Nena, que participava de uma série de reuniões e também estava envolvida na organização dos Jogos Olímpicos Indígenas. Questionada pela reportagem sobre a situação de impedimento no certame a Karapotós vinculados ao Cacique Gilvan, Cacica Nena não respondeu sobre o assunto. Já sobre a falta de água,
negou a existência do problema.

Apoie a Mídia Caeté: Você pode participar no crescimento do jornalismo independente. Seja um apoiador clicando aqui.

Recentes