Por: Alexandre Fleming*

As lagoas que recortam Alagoas são mais que um cartão-postal. São berçário de espécies, fonte de sustento e espaço cultural de comunidades inteiras. Na Mundaú e na Manguaba, em Maceió e Marechal Deodoro, ou na Lagoa do Jequiá, em Jequiá da Praia, pulsa um complexo estuarino-lagunar com importância ecológica e socioeconômica documentada. Estudos indicam que o Complexo Estuarino-Lagunar Mundaú-Manguaba é um dos ecossistemas mais relevantes do estado e do país, com área de cerca de 7.844 km² e sustento direto ou indireto para centenas de milhares de pessoas.
Esses ecossistemas enfrentam degradação acelerada. Pesquisas apontam pressão contínua de esgoto doméstico sem tratamento, efluentes industriais, ocupação desordenada, assoreamento e uso agroquímico associado à cana-de-açúcar, fatores que alteram a qualidade da água e a dinâmica ecológica das lagoas. A carência de biomonitoramento periódico pelos órgãos públicos agrava a vulnerabilidade.
Foi nesse cenário que pesquisadores da Ufal, com colaboração de outras instituições brasileiras, revelaram dados alarmantes sobre a saúde das comunidades ribeirinhas. Em amostra de 60 pescadores e marisqueiras do entorno da Mundaú, o nível máximo de mercúrio no sangue atingiu 19,02 µg/L, com média três vezes superior à do grupo-controle, e valores de urina até 8,5 vezes maiores. O estudo também registrou queda de 39% na capacidade de ligação do oxigênio pela hemoglobina dos expostos, sinalizando dano sistêmico mesmo quando parte dos resultados permanece dentro de limites regulatórios. Esses resultados estão documentados na dissertação de mestrado de Maiara Queiroz, do Programa de Pós-graduação em Química e Biotecnologia (PPGQB) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), intitulada Efeitos da Exposição Crônica ao Mercúrio em Pescadores do Complexo Lagunar Mundaú-Manguaba (CELMM) e em modelo animal hipercolesterolêmico.
A tragédia se agrava quando lembramos que a Lagoa Mundaú e seu entorno sofrem também os efeitos do crime ambiental da Braskem. A extração de sal-gema levou à desocupação de mais de 14 mil imóveis e afetou quase 60 mil pessoas. A instabilidade geológica, agravada pelo colapso da mina 18, ocorre em área adjacente ao sistema lagunar. É um símbolo de como interesses econômicos predatórios colocam em risco o território, a vida e a subsistência de quem dele depende.
No último dia 13 de agosto de 2025, a primeira-dama Janja Lula da Silva, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, e o ministro da Pesca e Aquicultura, André de Paula, visitaram marisqueiras em Pernambuco e Alagoas, com agenda de “escuta ativa”. No mesmo dia, o governo federal anunciou a doação de computadores e recursos para uma cooperativa de marisqueiras no Vergel do Lago. São medidas positivas, mas insuficientes diante do quadro sanitário e ambiental descrito pela ciência.
Celebrar o trabalho das marisqueiras sem enfrentar o envenenamento silencioso que as atinge é negar-lhes o direito mais básico: viver com saúde. Essas mulheres, que sustentam famílias e preservam modos de vida ancestrais, estão expostas a um risco ambiental que o poder público insiste em marginalizar. Elas carecem de infraestrutura adequada para beneficiamento e comercialização do pescado, acesso garantido à saúde preventiva, transporte seguro para deslocamento às áreas de coleta, saneamento básico em suas comunidades, programas contínuos de capacitação técnica e políticas de seguridade social que as protejam contra acidentes e períodos de baixa produtividade. Sem apoio legal e institucional duradouro, a mariscagem segue como atividade precarizada, vulnerável à exploração, à insegurança alimentar e à perda de direitos trabalhistas e previdenciários.
A pauta ambiental precisa sair da estética e entrar no território das medidas estruturais: saneamento efetivo no complexo lagunar, fiscalização contínua das fontes poluidoras, reparação integral das áreas afetadas pela Braskem e acompanhamento médico constante das comunidades.
O problema das lagoas não se limita ao colapso ambiental. Ele atinge também o tecido cultural e político das populações ribeirinhas. No coração do Vergel do Lago, o Quintal Cultural se consolidou, há 17 anos, como espaço de resistência popular e de afirmação periférica. Ali a música, a poesia, o artesanato e a luta social se encontram para preservar identidades e fortalecer o senso de comunidade. Foi nesse mesmo território que o Grito dos Excluídos de 2024 ecoou com força, denunciando o crime ambiental da Braskem e exigindo justiça social, ligando a luta ambiental à luta por direitos humanos, moradia digna e soberania popular.
O problema das lagoas de Alagoas não se resolve com fotos ao lado de redes e canoas nem com a entrega de notebooks. É preciso enfrentar as causas da contaminação, garantir assistência integral às vítimas e romper o ciclo de descaso que adoece gerações.
O mercúrio não se vê a olho nu, mas seus efeitos são implacáveis. Ignorá-lo é condenar ao silêncio e à doença justamente quem mantém vivas as lagoas que dão nome ao estado, e é também permitir que tragédias industriais como a da Braskem continuem corroendo o meio ambiente e a dignidade de Alagoas.
Alexandre Fleming é professor do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), campus Maceió, onde atua há quinze anos nas áreas de História e Educação. É graduado em História e mestre em Educação pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Já foi presidente do Sintietfal e coordenador-geral do Sinasefe Nacional. É também membro da Rede Nacional de Proteção de Jornalistas e Comunicadores.





