Por Alexandre Fleming*

No último 7 de setembro, quando o país lembrava sua independência, cerca de 50 famílias ocuparam o antigo prédio abandonado do INSS na Avenida Dona Constança, em Maceió. A ação, organizada pelo Movimento Luta nos Bairros, Vilas e Favelas, integra uma mobilização nacional com o lema “Não há independência e nem soberania sem direito à moradia”. Em Maceió esse gesto ganha um simbolismo ainda maior, pois a cidade vive a maior crise habitacional de sua história recente em consequência direta do crime socioambiental provocado pela Braskem.
Desde 2018, mais de 60 mil pessoas tiveram que deixar suas casas em cinco bairros inteiros da capital alagoana. A instabilidade do solo causada pela exploração desenfreada de sal-gema destruiu vidas, histórias e vínculos comunitários. Para muitos, o trauma da remoção forçada ainda está longe de cicatrizar. O que se vê é o crescimento da precariedade habitacional, com famílias que não receberam indenizações justas, que foram empurradas para aluguéis impossíveis de sustentar ou que simplesmente perderam o acesso a uma moradia digna. O mercado imobiliário se aproveitou da tragédia, os preços dispararam, os aluguéis se tornaram abusivos e milhares de pessoas passaram a viver de favor em casas de parentes ou amigos, sem qualquer perspectiva de estabilidade.
É importante destacar que as famílias da Ocupação Manoel Lisboa não são necessariamente vítimas diretas da Braskem, mas expressam de forma contundente o problema real da moradia em Maceió. Direta ou indiretamente, toda a cidade sofreu com a tragédia. A crise habitacional atingiu em cheio a vida urbana, agravando a exclusão social e expondo a incapacidade do poder público de oferecer soluções efetivas.
A ocupação surge nesse contexto de desespero e resistência. O imóvel do INSS, abandonado há anos, agora abriga famílias que não podem mais esperar por promessas que nunca chegam. A escolha do nome evoca a memória do líder revolucionário alagoano Manoel Lisboa, assassinado pela ditadura militar em 1972, símbolo da luta contra a opressão e por justiça social.
O caso da Braskem escancarou como o Estado brasileiro e o capital privado tratam a questão urbana, mostrando que vidas inteiras são descartáveis diante do lucro. Enquanto a mineradora negocia bilhões em acordos, famílias seguem invisíveis, sem acesso a soluções concretas. A Constituição de 1988 é clara ao afirmar que moradia é direito social, mas na prática esse direito tem sido negado cotidianamente.
Cada gesto de apoio ajuda a manter viva a resistência e a dignidade das famílias que, diante da omissão do poder público, transformam abandono em luta e ocupação em esperança. Estão sendo arrecadados itens de cozinha, produtos de limpeza, colchonetes, mesas, cadeiras, materiais de higiene, ferramentas como enxada e pá, além de carrinhos de mão, baldes e panos de chão.
As doações podem ser feitas diretamente ou pelo Pix: mlbalagoas21@gmail.com.

Alexandre Fleming é professor do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), campus Maceió, onde atua há quinze anos nas áreas de História e Educação. É graduado em História e mestre em Educação pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Já foi presidente do Sintietfal e coordenador-geral do Sinasefe Nacional. É também membro da Rede Nacional de Proteção de Jornalistas e Comunicadores.






