Palmeira dos Índios: após chefe de operações ‘queimar largada’, Polícia Civil não responde sobre tiros em escola indígena

Atentado em escola acontece em meio a conflitos sobre demarcação de terra indígena

Seis dias depois dos tiros deferidos na Escola Estadual Pajé Selestino da Silva, em Palmeira dos Índios, a Polícia Civil segue sem informar se os autores dos disparos foram detidos ou, pelo menos, identificados. O delegado Rosivaldo Vilar chegou a informar, por meio de assessoria, que gravaria um vídeo na manhã de ontem, 13, mas ainda não publicou qualquer declaração.

O silêncio da Polícia Civil a respeito do crime vem num caminho diferente da manifestação antecipada do chefe de operações de Palmeira dos Índios, identificado como Diogo Martins, que, ainda com as investigações em andamento, apressou-se em garantir que não havia ligação nenhuma entre o ataque à escola e o processo de demarcação das terras indígenas. Na mesma fala, que aconteceu sem que o inquérito tivesse sido concluído, o chefe de operações se contradiz declarando que ainda estão buscando mais informações sobre a motivação dos suspeitos ainda, o que suscitou ainda mais questionamentos.

Neste segunda, 13 de novembro, a Coordenadoria de Direitos Humanos – CDH e o Centro de Atenção e Apoio ás Vítimas de Crimes e Atos Infracionais do Tribunal de Justiça de Alagoas também chegaram a pedir celeridade nas investigações, considerando a escalada de violência contra os Xukuru-Kariri, no contexto do processo demarcatório. De acordo com o presidente da Coordenadoria, desembargador Tutmés Airan, a urgência e cuidado com o inquérito é fundamental para, sobretudo, evitar novos ataques em meio ao conflito na cidade.

De acordo com as informações do Boletim de Ocorrência, na noite do último 9 de novembro, foram ouvidos disparos de arma de fogo no entorno da instituição escolar. Logo em seguida, marcas de tiros foram encontradas nas paredes da escola, no muro, no teto do ginásio, e no portão. Na sequência, um morador da localidade chegou a identificar o veículo cujos ocupantes efetuaram os disparos.

“A quem serve a narrativa do Sr. Diogo Martins ao afirmar que o crime não guarda relação com o processo demarcatório? Se o inquérito policial ainda está em curso, como chegar a essa precipitada conclusão? Tal manifestação não deveria ser emitida pela autoridade policial que é delegado responsável?”

A Mídia Caeté procurou a Polícia Civil para obter mais informações sobre a declaração, e recebeu a informação de que o delegado encaminharia um vídeo até a manhã de ontem, 13, o que não aconteceu. 

O ataque à escola acontece em meio a um clima de discursos violentos, desinformação e propagação de ódio contra indígenas Xukuru-Kariri, em razão do processo de demarcação da terra indígena, que já se encontra num estágio onde técnicos da FUNAI fazem o levantamento das benfeitorias realizadas por ocupantes não indígenas para fins de indenização. Reportagem da Mídia Caeté revelou como o conflito tem crescido na cidade. Leia aqui a matéria.

Em memorando direcionado à Secretaria de Educação, a gestão da escola reforça a solicitação por rondas periódicas do Batalhão Escolar, a instalação de câmeras no lado de fora da escola, e uma manifestação oficial e pública de apoio à instituição. No documento, os gestores acrescentam:

“O povo Xukuru-Kariri, está vivenciando as fases finais do processo de Regularização Fundiária do Território Tradicional Xukuru-Kariri, deste modo, nos últimos dias tem sofrido preconceitos, discriminação, racismo e nossas lideranças vêm sofrendo ameaças. A escola é um dos locais sagrados para nosso povo, violar esse espaço é algo inaceitável.”

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