Pesquisas eleitorais e o jogo de narrativas em Alagoas

Artigo de Alexandre Fleming

Por Alexandre Fleming*

 

Renan Calheiros, Paulo Dantas e Renan Filho em evento. Foto: Pei Fon/Agência Alagoas

Os alagoanos foram surpreendidos, nesta penúltima semana de setembro, com a divulgação de duas pesquisas do instituto Real Time Big Data. A primeira destacou a aprovação de 66% do governador Paulo Dantas (MDB). A segunda projetou o ex-governador e atual ministro Renan Filho (MDB) liderando em todos os cenários para 2026. As manchetes correram a imprensa local como fatos consumados, quase sem contraponto, análise crítica ou mesmo contextualização mínima sobre quem contratou esses levantamentos.

É preciso ligar o sinal de alerta. Pesquisas de opinião são instrumentos legítimos quando feitas com rigor e transparência. No entanto, quando aparecem em sequência, exaltando as principais lideranças de um mesmo grupo político, em pleno ano que antecede as eleições, é inevitável suspeitar do seu uso como ferramenta de construção de narrativa. Mais que medir o humor do eleitorado, servem para moldá-lo, apresentando como inevitável a continuidade do poder de quem já governa o estado há mais de uma década.

Chama ainda mais atenção o silêncio sobre outras pré-candidaturas. Lenilda Luna (UP), por exemplo, terceira colocada na disputa pela prefeitura de Maceió em 2024 e única mulher com densidade eleitoral e disposição pública de se colocar em 2026, sequer aparece nos cenários. Esse apagamento não é casual: é político. É a tentativa de reduzir o horizonte de alternativas, restringindo o debate público a nomes já consolidados no establishment alagoano.

A responsabilidade de parte da imprensa local nesse processo é central. Reproduzir pesquisas sem informar quem as contratou, qual a metodologia, qual o perfil socioeconômico da amostra e quais pré-candidaturas foram deliberadamente excluídas é prestar um desserviço à democracia. É transformar jornalismo em propaganda disfarçada, reforçando um jogo de cartas marcadas.

O eleitor alagoano precisa compreender que pesquisa não é profecia. É fotografia de um momento, condicionada por quem pergunta, como pergunta e a quem pergunta. Mais do que números, importa refletir: a quem serve esse movimento? Que interesses se articulam quando, no mesmo compasso, governante e ex-governante do mesmo grupo aparecem alçados a protagonistas únicos do futuro político do estado?

Se quisermos um processo eleitoral livre e plural em 2026, é fundamental questionar a origem e o uso das pesquisas. Aceitar passivamente os números que nos são empurrados é abrir mão da possibilidade de construir alternativas. É hora de olhar para além dos gráficos e enxergar o que está em jogo: o direito de decidir o nosso destino sem sermos conduzidos por narrativas fabricadas.

 


 

Alexandre Fleming é professor do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), campus Maceió, onde atua há quinze anos nas áreas de História e Educação. É graduado em História e mestre em Educação pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Já foi presidente do Sintietfal e coordenador-geral do Sinasefe Nacional. É também membro da Rede Nacional de Proteção de Jornalistas e Comunicadores.

 

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