Remoção de estátua levanta debate sobre racismo e intolerância religiosa

Além da retirada feita pela Prefeitura de São Miguel dos Campos, discursos violentos contra religiões de matriz africana são enfrentados na cidade
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Estátua da Taieira Miguelensa é removida. Foto: Divulgação
A Taieira aqui nasceu,
Neste solo esverdeado;
E hoje faz parte da história
Do meu município amado.
Surgiu da inteligência,
Dessa grande folclorista;
Que herdou do seu avô
O dom de ser artista.
(Trecho d’ A Taieira de Nair da Bertina – versos de Ernande Bezerra)

Questões políticas, respeito ao artista, preservação ou uma promessa de campanha – no mínimo – mal explicada? Seja quais forem as justificativas, a retirada da estátua em alusão às Taieiras Miguelesenses, da entrada do município de São Miguel dos Campos, não teve uma justificativa e vem levantando – de forma cada vez mais intensa – o debate sobre racismo e intolerância religiosa legitimados pelo Estado. Nesse caso, a ação praticada pelo recém-eleito prefeito, George Clemente (MDB), em seu primeiro dia de mandato, vem sendo questionada sobretudo em razão do que teria motivado o deslocamento para as dependências de um Espaço Cultural na cidade.

Escultura Taieiras Miguelenses. Foto: Divulgação/ Página São Miguel dos Campos e Sua História com o escritor Ernande Bezerra

A controvérsia a respeito da estátua começa, no entanto, muitos meses antes da própria remoção. A versão original da escultura foi construída pelo artista Roniekson Okobayewo, em tamanho de miniatura para outro evento do município.

“Desde o começo da concepção dessa obra que deu problema. Foram confeccionadas 18 obras em miniaturas para serem entregues pela Secretaria da Mulher, ainda quando Maria Helena Jatobá era secretária na antiga gestão do prefeito Pedoca Jatobá. Kalunga é o nome da bonequinha e Caterine, que é a personagem”, relatou. A surpresa para Roniekson ocorreu mais recentemente, pouco antes das eleições, quando o então o secretário de Cultura, “sem autorização nenhuma pegou a obra e mandou replicar, sem autorização nenhuma, para colocar no meio da cidade. Eu só soube da obra depois que estava confeccionada para ser colocada. Desde o inicio, ela não era para estar ali”, retrata.

O artista relata que pensou ingressar no Ministério Público (MP) para reivindicar a retirada da estátua e formalizar uma denúncia por plágio. “Eles fizeram a réplica sem consultar o artista, nem nada. Apenas no dia fizeram uma homenagem a mim e pronto”, contou. No entanto, Okobayewo relata que decidiu não levar adiante naquele momento, uma vez que dirigia a Casa de Cultura.

Diante da percepção do direito autoral violado, seja na assinatura ou no consentimento para estar ali, Roniekson afirma não considerar a retirada da estátua como ato racista. “Teve a maior polêmica, mas não foi racismo que as pessoas disseram. Tem a ancestralidade e todo o processo, mas a situação foi errada desde que colocada ali, porque não foi concedida pelo artista. Quando o atual prefeito me procurou e perguntou se eu autorizaria a retirada da boneca, eu respondi que com certeza, eu quero que retirem ela. E que inclusive eu iria entrar no MP para ver essa questão e também a dos direitos autorais, porque – embaixo da boneca –  está o nome do ‘Leonel Cavalcante’, que é o ex-secretário de Cultura”.

Para Roniekson, as críticas levantadas em torno de questões raciais partiu de grupos políticos da oposição do prefeito. “Não foi perseguição ou intolerância religiosa. É porque as pessoas pegam o fio e transformam em outra coisa. É uma questão mais política do que de intolerância religiosa ou quaisquer que sejam outras coisas. Pegaram uma situação para virar notícia, mas é questão política, coisa de interior mesmo. Foi uma ação centralizada e isolada. Digo isso com propriedade de causa”, disse. “São opositores do atual governo que ficam mexendo com a situação, que é perseguição e racismo, mas não é porque o próprio artista autorizou”.

Segundo o artista, a disseminação maior das denúncias de racismo ocorreram em razão do atual prefeito ter feito a promessa de campanha de que, se ganhasse, retiraria a obra da via pública e levaria para a casa da cultura. “Essa questão da estátua demoníaca começou desde a gestão passada quando foi colocada, porque foi um reboliço triste na cidade. A representatividade da boneca causou o alvoroço, porque é muito forte dentro do Candomblé. E aí as pessoas se aproveitam. Publicamente ele falou, mas houve um pedido do próprio artista”, confirmou. .

“Quando ele foi fazer a retirada, antes de qualquer coisa, ele me ligou e perguntou se eu queria retirar e disse que ‘como é da sua autoria, fica muito complicado a gente retirar e você chegar nas redes sociais e falar mal de mim’ e eu respondi ‘que você tem total apoio prefeito , porque ou você retira ou vou retirar judicialmente’”, relatou Roniekson.

O artista também opinou que a escolha da personagem utilizada foi “infeliz”. “A polêmica foi grande com meu nome, pois, apesar de ser de matriz afro, a escolha foi infeliz para ser colocada. Podia colocar a baiana que também representa as taieiras. O problema foi a escolha da Kalunga. A Kalunga foi introduzida dentro do folguedo no maracatu e na taieira. E ela tem a representatividade muito forte que é a Pombagira. A Kalunga é a real ancestralidade do manifesto e a Caterine, dentro do Candomblé, representa o Exu. Aí fica muito complicado para São Miguel dos Campos, onde a base é de evangélicos e de pessoas católicas. Apenas 1% é de matriz afro”, defendeu.

Acusação de intolerância persiste

Se os fatos apontam para uma instalação indevida da obra, sem o consentimento e o mínimo de respeito ao direito autoral do artista, por outro lado, a acusação de intolerância religiosa e da prática de racismo no ato de retirada não se dissipa. E a explicação não é trazida por grupos da oposição.

A Taieira aqui nasceu,
Neste solo esverdeado;
E hoje faz parte da história
Do meu município amado.
Surgiu da inteligência,
Dessa grande folclorista;
Que herdou do seu avô
O dom de ser artista.
(Trecho d’ A Taieira de Nair da Bertina – versos de Ernande Bezerra)

Nair da Rocha Vieira, conhecida como Nair da Bertina, iniciou a dança folclórica da Taieira, ainda na década de 1920. A folclorista é também conhecida como Baronesa Negra de São Miguel por Grandeza, título recebido em razão de ser neta de Barão de São Miguel. Ancestral, a taieira reúne em si elementos culturais e religiosos de matriz africana e manifestação cultural popular nas cidades onde persistiu.

“A taieira é uma dança folclórica, de cunho religioso e de origem africana, que faz alusão aos santos. Essa dança é conhecida por ser praticada na região nordeste. A inauguração da imagem Kalunga, no dia 15 de julho do ano passado, foi um grande ganho cultural para a cidade miguelense, já que é uma forma de evidenciar a resistência do povo negro que jamais deixou morrer a sua cultura.” As informações são trazidas pela cientista social Naiara Coelho, integrante também da Associação de Negras e Negros da Universidade Federal de Alagoas, a ANU.

Em um bailado levantado tão orgulhosamente como patrimônio de São Miguel dos Campos, o que explicaria sua retirada para uma Casa de Cultura, em meio a tantas outras esculturas que permanecem nas vias públicas?

 

Foto: Divulgação /Página São Miguel dos Campos e Sua História com o escritor Ernande Bezerra

“É a estatua de uma mulher negra segurando uma boneca, com vestimentas que remetem à cultura de raiz africana”, caracterizou o estudante de Relações Públicas e militante negro independente, Maycon Douglas. “Por não conhecerem a dança, que é típica da cidade, uma cultura que é municipal e que morreu de certa forma, as pessoas automaticamente ligaram a imagem da estatua a alguma religião de matriz africana, Candomble ou Umbanda, embora não haja o vínculo com religião. E os líderes religiosos, começaram a cobrar a retirada à antiga gestão. E como essa nova gestão tem muita base cristã, principalmente protestante, meio que se uniram pela vontade de apagar o que consideram negativa e maligna”.

Nas explicações oficiais da Prefeitura de São Miguel dos Campos, entretanto, não houve elementos aludindo à situação de promessa de campanha efetuada a grupos religiosos. A Mídia Caeté tentou falar com o prefeito George Clemente repetidas vezes, mas não obteve êxito. Em nota, a afirmação da Prefeitura tampouco mencionou intenção de cumprir com um pedido do artista, limitando-se a justificar o deslocamento como uma prática para evitar vandalismo e depredação da escultura.

Nota da Prefeitura de São Miguel dos Campos

“A prefeitura de São Miguel dos Campos informa que a boneca Taieira, que estava na entrada da cidade, foi retirada do local para preservá-la e evitar a degradação e o vandalismo – visto que ela já apresentava sinais de depredação.
A gestão está preocupada com o bem-estar da escultura e, por isso, levou a peça para a Casa da Cultura, para que ela fique justamente no Espaço Nair da Rocha Vieira, sala que homenageia a grande folclorista miguelense, com o total aval da família. O objetivo da administração é levar mais informação e mais arte. Colocando a Cultura acima de questões político-partidárias, étnicas ou religiosas. Reafirmando que o maior patrimônio da cultura miguelense é o artista”.

Mais que disputas locais

A explicação da retirada da estátua por preservação não convenceu, no entanto, quem já segue inserido no debate sobre racismo e provoca ainda outras questões. Uma delas é a seguinte: por que outras estátuas não foram retiradas?

Para a cientista social Naiara Coelho, há vários elementos que contextualizam o caráter racista da atitude, sobrepondo inclusive as questões políticas. “O que está por trás da retirada da imagem do centro da cidade, ali de frente ao Banco do Brasil? É evidente que o racismo estrutural e religioso nega a humanidade e qualquer forma de visibilidade positiva em relação aos grupos étnicos que não estão no poder. Não é à toa que raramente se vê pessoas ciganas, indígenas ou pretas ocupando um lugar de maior prestígio social”, relata. “Portanto, não se pode afirmar que o que está por trás da retirada da imagem da Kalunga seja apenas conta de “disputas políticas locais”. Eu jamais irei defender um politico ou um partido que persegue, discrimina e demoniza a cultura de qualquer grupo étnico. É através de um falso moralismo cristão que se articula meios para barrar o que lhe é diferente, assim a sociedade continua destruindo culturas e memórias”

Maycon rememora a publicação de textos impulsionados por essas lideranças de religiões em sites locais, que sugerem que a gestão anterior teria “vendido a alma ao diabo” ao colocar a estátua naquele lugar. “Em toda cidade, em diferentes pontos, existem ou estátuas ou símbolos de manifestação de religião cristã. É muita hipocrisia todas as outras religiões de base cristã poderem se manifestar em vias públicas, com passeatas e desfiles. A gente não observa essa mesma liberdade com as religiões de matriz africana”, avalia.

A cientista social lembra o quanto essas condições não são particulares e vêm se entranhando historicamente em diversos lugares a partir, inclusive, de ataques violentos mais explícitos. “Muita gente atua pressionando e privilegiando um grupo que lhe é aceitável, ao possibilitar uma bancada protestante, dias de feriados cristãos católicos e evangélicos, mas ao povo de Candomblé, Umbanda, Jurema e demais religiões não ocidentais é negado até mesmo o direito ao culto. Isso acontece quando integrantes da sociedade civil perseguem e quebram casas de religiões de matriz africana”, diz.

“Estigmatizam para silenciar o que é diferente, para que a narrativa vencedora seja sempre a colonizadora. Jamais podemos esquecer que a tática dos opressores é inferiorizar determinado povo para conseguir se manter no poder, a história desse país mostra isso de forma muito evidente e cristalina, a exemplo da negação da humanidade dos povos originários desse país e a constante perseguição às cosmologias indígenas”.

Postura de site local é questionada

“Lá se vai Mestra Bertina,
Com seu grupo enfeitado;
Vestidos de roupas de chitas
E com lenços iluminados.
Também vai a caterine,
Com mãe criola nos braços;
Acompanhado da rainha
E do rei apaixonado.”

(Trecho d’ A Taieira de Nair da Bertina – versos de Ernande Bezerra)

Os questionamentos levantados sobre a prática de racismo não se limitam ao prefeito ou a grupos intolerantes, mas também expuseram divulgações em sites locais que retrataram o assunto. Em um deles, o “Alagoas Atual”, dois textos despertaram a atenção de Naiara Coelho.

FONTE: Alagoas Atual

O mais recente trata de como o site noticiou o deslocamento da estátua para a Casa de Cultura. “A reportagem deixa solta uma pergunta sobre qual seria o ‘significado e real motivo de ser inaugurado com o dinheiro dos contribuintes Miguelenses, em frente de uma repartição financeira no ano passado, reacendeu, na época, uma grande discussão dos limites entre política e religião’. O que leva ao entendimento da população de que a escultura não tem um valor cultural para a cidade”, analisa o pesquisadora.

“Nas linhas seguintes, deixa uma frase que remete a ideia de lugar onde se faz oferendas, pois quando se fala em encruzilhadas, podemos falar da Umbanda como exemplo, as encruzilhadas são onde se realizam oferendas para entidades como Pomba Gira, a frase deixa evidente que a escultura seria uma forma “de oferenda” ao declarar que: “o símbolo mais visível foi colocado em frente ao Banco do Brasil e em uma encruzilhada”

A integrante da ANU acrescenta que o mesmo site também havia feito outra reportagem a respeito, no ato da inauguração da placa, em 15 de julho de 2020. “O mesmo autor da reportagem escreveu uma outra que contém a seguinte manchete: “Polêmica na cidade de São Miguel dos Campos: será que o Prefeito agora é pai de santo? ou simplesmente vendeu sua alma e deu a cidade como oferenda?” A reportagem pode ser visualizada clicando aqui. 

“O autor começa falando sobre a existência da cultura vinda dos povos de África e fala sobre a imagem que representa as taieiras, mas, no final da reportagem, deixa perguntas que se baseiam em racismo escancarado. São soltas umas indagações que circulam no imaginário racista que não tolera nada que venha de culturas não brancas, pois não suportam a visibilidade em relação as culturas não ocidentais”, retrata.

Alguns trechos foram destacados pela pesquisadora do artigo assinado por Givaldo Luiz, como por exempo: “A pergunta é: que critério avaliativo levou o gestor e seu ex Secretário de Cultura a cometer esse grande furdunço na cidade? Será que ele não sabe que hoje 65% da população do município são de base evangélica? Ou será que ele fez um pacto e deu a cidade como oferenda? Fica a dúvida!”

Em contato com a Mídia Caeté, o jornalista e co-fundador do site Alagoas Atual relatou não ter escrito as reportagens citadas com qual intenção de hostilizar religiões de matrizes africanas ou de prática racista.

“São Miguel dos Campos tem 74 mil habitantes. A maior parte da população é evangélica, a segunda parte é católica. E a minoria é de Umbanda. Não tenho nada contra nenhuma religião mesmo porque adoto o artigo da Constituição que diz que estamos em um Estado Laico. A política em São Miguel é muito pesada. Então, quando questiono ‘será que o prefeito vendeu a alma?” foi porque a homenagem era para ser feita para a Dona Nair e – quando tiraram o véu que estava cobrindo – foi totalmente diferente. Pessoas da família também criticaram. Se foi dito que iria colocar uma homenagem à pessoa da terra, que coloque dela, mas, dentro da cidade, colocar algo religioso, em nosso país que é laico e fazer estátua de minoria ou maioria de uma religião, é errado”, respondeu Givaldo Luiz.

Questionado pela Mídia Caeté se a mesma crítica vem sendo feita pelo Portal em relação às demais estatuetas da cidade que simbolizem outras religiões, como as cristãs por exemplo, o comunicador respondeu:

“A questão que fiz foi porque, no momento, aquela homenagem para folclorista não foi pra Dona Nair. Não foi feita e foi enganada a maior parte pra população. Poderia ser católica, evangélica. Mas não foi uma homenagem para uma mulher grande guerreira, que trouxe a cultura de seus familiares e que foi perdida pelo tempo. Fiz critica pessoal ao prefeito e não uma crítica racial”, disse. “Defendo a causa gay. Tenho na família pessoas são gays, meu pai foi negro foi trabalhador rural que foi trabalhador da grande indústria. De muitas formas foi criticado e sofreu preconceito por questão racial e hoje sou um dos caras que luto por essa causa. Agora aquela matéria que coloquei, em uma briga de duas famílias, você tem que ficar imparcial e falar a realidade. Será que a pessoa agradou a maioria da população em São Miguel dos Campos? É por isso que falei sobre ter oferecido a alma”, justificou.

O olhar trazido pelas declarações contidas no texto, segundo Naiara, incentivam ainda mais as condições de hostilização. “Essas são as questões que se perpetuam no imaginário de muitas pessoas que não conhecem as religiões afro-brasileiras e as demonizam. Para retirar a imagem, não bastava que ela tivesse sido inaugurada pela gestão anterior, o fato é que ela representa a força de uma cultura que não é a dominante e para derrubar e negar espaços, inferiorizam e destroem, proíbem manifestações que representam a diversidade. Não haverá perigo de praças serem repintadas ou escolas modificadas porque foram construídas ou melhoradas por gestões anteriores”, rebate.

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