Sobre o PT em Alagoas: a capitulação ao MDB como estratégia

Por Alexandre Fleming*
Lula (PT), Paulo Dantas (MDB) e Renan Filho (MDB) após eleição de Paulo Dantas. Foto: divulgação.

A relação do Partido dos Trabalhadores (PT) com o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) em Alagoas não é um desafio tático nem um problema de comunicação. É um processo de subordinação política sustentado ao longo de décadas, aceito por lideranças que se acomodaram com migalhas de poder e espaços institucionais periféricos. O problema não é apenas a manutenção de uma aliança. É a escolha sistemática de abrir mão do protagonismo político em nome da sobrevivência eleitoral, mesmo que isso signifique ser satélite de uma oligarquia que há trinta anos comanda o estado e mantém o povo alagoano na pobreza e na dependência.

A tentativa de justificar a estagnação do PT em Alagoas apontando que a esquerda local falhou na formação de lideranças é, no mínimo, injusta e desonesta. Essa leitura ignora que existe sim uma geração de lideranças populares, sindicalistas, professores, comunicadores e militantes que resistem nos territórios. O problema não é a ausência de quadros. O problema é que essas lideranças são sistematicamente invisibilizadas pelas direções partidárias, justamente por não se curvarem à lógica de submissão ao MDB. A base não é claque. A base é crítica, combativa, viva, e o que falta é espaço de decisão e reconhecimento político, não vontade de lutar.

A prova da vitalidade política fora do núcleo dirigente tradicional está na eleição de 2024. Os três nomes mais votados para a Câmara Municipal pelo partido não vieram da base histórica do PT, mas sim de outras experiências políticas e sociais, ingressaram no partido para disputar a eleição e superaram todas as candidaturas tradicionais ligadas diretamente à direção partidária. Entre eles, está inclusive a única vereadora eleita, que já exercia o mandato e optou por renovar seu compromisso público dentro do PT. Esse dado é incontornável e revela que há campo fértil para renovação e disputa real, desde que se retirem os bloqueios impostos pela estrutura interna.

Ignora-se também o desempenho eleitoral do PSOL e da Unidade Popular (UP), que nas eleições municipais de Maceió em 2012, 2016, 2020 e 2024 obtiveram resultados mais expressivos do que o PT. Em todas essas disputas, quando o PT lançou candidaturas próprias, foi superado por essas legendas de esquerda. Em 2016, o deputado federal Paulão foi derrotado pelo PSOL, assim como em 2020 o então presidente estadual do partido, Ricardo Barbosa, também obteve resultado inferior. Em 2012 e 2024, o PT se diluiu em coligações com candidaturas ligadas às oligarquias locais, enquanto o PSOL, em 2012, obteve 5,13% dos votos e elegeu dois vereadores. Já em 2024, a UP protagonizou um feito inédito com a candidatura de Lenilda Luna, que foi a terceira mais votada da eleição em Maceió, alcançando a maior votação absoluta garantindo o melhor desempenho da sigla em todo o país entre as capitais.

Repetir que os quadros são os mesmos e do mesmo tamanho é fingir que não há bloqueio interno à renovação. O PT em Alagoas estagnou porque se tornou um partido sem vida orgânica, conduzido por uma estrutura que gira em torno de mandatos cada vez mais isolados e dependentes da aliança com o MDB. Essa aliança, ao contrário do que tentam fazer parecer, não fortalece o partido. Ela o enfraquece, o apaga e o descaracteriza.

Não se trata de lançar candidaturas próprias por vaidade ou porque se tem um broche na camiseta. Trata-se de disputar projeto, de afirmar identidade política, de dizer que sem candidatura própria o partido não existe enquanto força transformadora. Sem confronto programático com a oligarquia, o PT em Alagoas segue como um adesivo na máquina dos Calheiros. Nada mais.

Dizer que romper com o MDB agora seria suicídio político é ignorar que a permanência nesse ciclo é que tem matado o PT aos poucos. O partido não cresce, não forma novas lideranças, não mobiliza mais como antes e não desperta esperança nas camadas populares. Sua presença no interior é frágil e, em muitos municípios, inexistente. Isso é resultado direto da dependência absoluta de um grupo que governa o estado com punho de ferro há mais de uma década, com o Senado ocupado por Renan Calheiros desde 1995, dois mandatos de Renan Filho no Executivo e seu atual sucessor, todos do MDB.

O argumento de que a prioridade é reeleger Lula em 2026 não pode servir de desculpa para entregar o PT localmente aos donos do poder. Um projeto nacional só se sustenta com enraizamento popular e coerência nos estados. Fortalecer Lula não passa por apagar o PT em Alagoas, mas por reconstruí-lo com coragem, autonomia e vínculos com o povo real, não com as oligarquias.

Enquanto persistir essa política de capitulação disfarçada de pragmatismo, o PT continuará pequeno em Alagoas. Não por falta de povo ou novas lideranças. Mas por falta de coragem política para romper com os velhos donos do poder e afirmar que é possível outro caminho. O povo alagoano não precisa de mais um gerente do MDB vestido de vermelho. Precisa de um projeto que enfrente a oligarquia, combata a desigualdade e devolva à esquerda o que ela tem de mais valioso: a capacidade de mobilizar consciências e a força de organizar a luta.

 


Alexandre Fleming é professor do Instituto Federal de Alagoas (IFAL), campus Maceió, onde atua há quinze anos nas áreas de História e Educação. É graduado em História e mestre em Educação pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Já foi presidente do Sintietfal e coordenador-geral do Sinasefe Nacional. É também membro da Rede Nacional de Proteção de Jornalistas e Comunicadores.

 

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