Trepidando, destruindo e aterrorizando: construtora transita com motoniveladora em rua na Garça Torta e assusta moradores

Empresa afirma atuar sob legalidade; moradores denunciam intimidação
Máquinas passando na Rua São Pedro têm sido causa de transtorno de moradores.

Mais um episódio conflituoso durante a construção do Edifício Dom Pietro, projeto de arranha-céu de 21 andares à beira-mar que também atravessa, do outro lado, a Rua São Pedro, na Garça Torta, em Maceió.

Desta vez, moradores divulgaram funcionários da construtora transitando com uma patrol – uma máquina motoniveladora de grande porte, que chega a pesar quase duas dezenas de toneladas, e segundo eles vem trepidando, destruindo a calçada e perturbando a vizinhança local. Em outras situações, máquinas deste mesmo porte são filmadas.

Ainda nas gravações, é possível verificar a ocupação da máquina ao longo da pista,  passando inclusive por cima de parte da calçada, a centímetros de um veículo estacionado. Em outro vídeo, a patrol paralisa completamente o trânsito, uma vez que sua longa extensão ocupa todo o espaço da estreita pista da via pública. De acordo com uma das moradoras, que optou por não ter seu nome identificado, há mais de um mês essa situação tem se repetido.

Durante as filmagens, é possível verificar a ocupação da máquina ao longo da pista,  passando inclusive por cima de parte da calçada, a milímetros de um veículo estacionado. Em outro vídeo, a patrol paralisa completamente o trânsito, uma vez que sua longa extensão ocupa todo o espaço da estreita pista da via pública. De acordo com uma das moradoras, que optou por não ter seu nome identificado, há mais de um mês essa situação tem se repetido.

“Ela parece um tanque de guerra, é uma máquina bem agressiva. Por si só, já causa bastante apreensão, porque é uma máquina grande e vem no asfalto, trepidando tudo. É uma máquina de poder de destruição muito grande”, relata. “E eles quando chegam com essa máquina, param muito perto dos carros, sobem calçadas, ficam dentro da máquina fazendo barulho, como se estivessem querendo nos intimidar”,

Os moradores locais contam que tem sido um desgaste contínuo. “Esse não é um tipo de máquina que pode vir andando para enrtar na obra. Só que o caminhão que traz não consegue entrar na rua justamente por ser uma rua muito pequena. Então uma máquina desse tamanho tem menos possibilidade ainda de ficar transitando”, explicam.

Segundo os moradores, quando reclamam da situação, em geral recbem respostas hostis dos funcionários das obras. “Eles dizem ‘é a gente quem manda aqui e vamos passar de todo jeito’. É sempre uma postura muito agressiva. Nós somos uma comunidade, uma ruazinha pequena que quase não tem um quilômetro. Ninguém quer atrapalhar o serviço deles, mas eu acho que tem que ter o mínimo de respeito e seguir regras”, declarou outro morador.

O nível de conflito entre comunidade e construtora chefou ao ponto de que os moradores afirmam ter receio de se identificarem e sofrerem algum tipo de represália, uma vez que diversas reclamações já vêm sendo formalizadas, seja contra o processo de construção, seja com os impactos do empreendimento no local.

No que diz respeito à situação atual, os relatos mais comuns são de barulhos e intensa movimentação fora do horário comercial, inclusive na madrugada. “Já chegaram a receber material de madrugada. Antes das sete horas da manhã, o caminhão já começa a sair com areia.  A qualidade do ar é totalmente prejudicial para quem está nas casas vizinhas, com fumaça preta entrando nas casas, jogando cimento para dentro das casas”, exemplifica a moradora. .”E o que nos deixa mais chateados nessa situação é a agressividade e a forma com que eles impõem a chegada dessas máquinas para dentro do canteiro de obras. Eles deixam muito claro que eles não estão nem aí para nada. Não podemos mais deixar nosso carro, porque eles ameaçam bater. Não tiram mais a patrol da rua”

Moradores contam que funcionários alegam ter concessão para transitar com a máquina a qualquer tempo na via.

De acordo com os moradores, os funcionários também alegam que têm autorização do código de trânsito. “Eles dizem que tratores e máquinas como essa podem andar livremente, igual ambulância. Não tenho certeza disso, mas acho que a informação não procede. Inclusive pelo grande porte e poder de destruição, essa máquina não pode andar livremente.

A Mídia Caeté procurou a empresa Bezerra Engenharia que, em nota, pediu desculpas “pelos transtornos ocasionados pela circulação de máquinas e caminhões nas ruas do entorno da obra. Reconhecemos que essas movimentações podem gerar incômodos à rotina dos moradores. Ressaltamos que todos os alvarás, licenças e autorizações estão devidamente regularizados e em dia. O engenheiro responsável pela obra e o engenheiro ambiental estão à disposição para ouvir as manifestações, esclarecer dúvidas e buscar soluções para minimizar os impactos dessas atividades. Reforçamos nosso respeito à comunidade e nosso compromisso em conduzir os trabalhos com responsabilidade e diálogo”, declarou, disponibilizando, na sequência, o número de contato do engenheiro responsável para um contato mais direto.

Os moradores, no entanto, reiteram que não há possibilidade de diálogo com os funcionários da empresa, uma vez que, ao reclamarem sobre os problemas ocasionados anteriormente, foram continuamente recebidos com intimidações e hostilizações por parte dos funcionários.

Já o Departamento Municipal de Transportes e Trânsito (DMTT) foi procurado e questionado se há regramentos ou legislação em torno da circulação de máquinas como a motoniveladora em vias públicas, como tem sido a fiscalização e quais as providências que devem ser adotadas diante de situações como esta. Até a finalização da reportagem, o órgão não emitiu resposta à reportagem.

Já ao IPLAM, a reportagem questionou a respeito da atual situação de licenciamento e alvará da obra do Dom Pietro, tendo em vista o contexto de revisão de Plano Diretor e o histórico de judicialização que tem permeado a problemática dessas construções de espigões pé na areia em Maceió. O órgão, até o momento, também não enviou qualquer retorno.

 

Histórico de Dom Pietro

Os conflitos relacionados à construção do Dom Pietro, dentro da Rua São Pedro, já vêm sendo conhecidos pelos constantes protestos da vizinhança. Os moradores já vinham alertando sobre os impactos de um prédio de 21 andares à beira-mar e que atravessa, do outro lado, uma rua pequena demais para um empreendimento desta extensão.

A comunidade alertava, ainda em 2024, em reportagem publicada na Mídia Caeté, para as ameaças ao ecossistema local, por estar sendo instalado em um  ponto para a desova de tartarugas, numa praia rica em recifes, elementos essenciais para a manutenção da biodiversidade marinha. Também alertavam para O projeto, segundo os moradores da Garça, também previa a supressão do lençol freático, o que poderia acarretar em danos irreparáveis aos sistemas hídricos locais e comprometer o abastecimento de água de muitas residências que dependem de poços artesianos. A situação agravará, de acordo com a preocupação dos moradores, problemas de abastecimento que já existem na região.

Apesar disso, a empresa alcançou todos os alvarás, e os conflitos iniciaram durante o início das obras. Moradores reclamaram o uso de britadeiras de fundação a todo o tempo, inclusive no período da noite e madrugada.

O Ministério Público Federal chegou abrir um inquérito civil, e a obra chegou inclusive a ser suspensa após recomendação ministerial. Enquanto isso, moradores e especialistas apontavam  as contradições do Estudo de Impacto e dos relatórios, acrescentando que a obra só agrava os problemas apontados pelo documento produzido. A reportagem da Mídia Caeté sobre mais esse episódio pode ser acessada clicando aqui. Questionado, o IPLAM não informou se as obras foram retomadas por via judicial ou administrativamente, pelo órgão.

 

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